Baseada numa personagem ficcionada (Ana Gondu), a companhia de teatro Krisálida sediada em Caminha encenou uma peça com duas actrizes, abordando os problemas com que se enfrentam emigrantes - no caso com ascendência africana -, na sua luta pela afirmação de cidadãos (do mundo) de pleno direito, independentemente dos locais onde se encontrem.
"História com pontos comuns a muitos de nós"
O espectáculo encenado por Carla Magalhães, directora artística deste grupo, percorre itinerários diversificados que a própria actriz Gabriela Amaro fez questão de nos referir no final da representação, concluindo que "eu sou de Portugal inteiro", atendendo a que "eu nasci em Lisboa, morei muito tempo no Alentejo, depois passei mais de uma década no Porto, voltei para Lisboa e estou novamente no norte - onde fiz este "Deslugar".
Esta actriz com raízes africanas, disse-nos que esta peça "toca-me a nível pessoal", reconhece, porque ao "estarmos a falar de um lugar, dois lugares, lugar nenhum, fica a questão: o que é um deslugar?".
Refutou que esta peça fosse autobiográfica, embora admitisse que incluísse coisas que "contribuíram para o espectáculo", antes considerando esta história "transversal a muitas histórias que acontecem a quem tem família, raízes, quer em Portugal, quer em África (sobretudo nos países de língua portuguesa)", nomeadamente aos afro-portugueses.
Há quem se reveja "em situações expressas no espectáculo"
Por outro lado, Raquel Ribeiro representou nesta peça a etnia europeia. Considerou que desde o início ao fim da representação, o seu papel "passa por várias situações que, no fundo, compõem a história desta personagem que é a Ana Gondu". Neste sentido, a actriz não considerou que ela faça apenas o papel de "colonialista ou de branca má", porque também se torna na "sua companheira, mãe, faço de público e de uma série de papeis que nos ajudam a compreender melhor a diversidade de situações que acontecem aos africo-descendentes e de outras comunidades".
Raquel Ribeiro admite que o "feed-back" recebido do público "tem sido positivo", agradecendo a oportunidade de terem vindo assistir ao espectáculo, sucedendo inclusivamente que uma angolana e outras pessoas "se conseguiram rever em situações expressas no espectáculo".
Esta peça surgiu no seguimento do plano traçado pela Krisálida para este ano, trabalhando as tradições ("a tradição ao coração"), como aconteceu com esta produção, "neste campo, do Deslugar" em que a tradição africana é trazida para Portugal, aqui representada pela terceira geração, e que "acaba por tocar também nas nossas tradições, porque tocamos nas histórias de África e Portugal", acrescentou.
Ambas consideraram "ser extremamente necessário" abordar estas temáticas, porque "todos convivemos e coexistimos no nosso país", em que as histórias "são comuns entre países e continentes", motivo pelo qual entende que "escondê-las, omiti-las ou fazer de conta que não existem é contribuir para esse legado colonialista que ainda subsiste", daí, refoçou, "a premência deste espectáculo".
"Deslugares sonoros"
O sonoplasta do "Deslugar", Filipe Miranda, acredita que a música emprestada à peça interpretada em palco por duas actrizes, permite entender à plateia (no caso, do Cineteatro Valadares) as ligações a África.
Admitiu, portanto, que "as reminiscências são africanas e portuguesas", o que lhe permitiu "fazer uma ponte" e integrar-se, nesta circunstância, nos "deslugares sonoros", embora a força de África se destaque, porque a base desta representação é este continente.
Mostrou-se realizado com a combinação conseguida, e em tom divertido, exclamou que se não fosse assim, "não a mostrava a ninguém".
Este espectáculo deverá ser levado ao palco em mais pontos do concelho e da região, conforme prevê a programação da Krisálida, nomeadamente a partir do mês de Maio.