"A realidade do envelhecimento, suas grandezas e fragilidades", foram o mote para uma "reflexão profunda", como a classificou a vereadora caminhense Sandra Fernandes, durante a conferência integrada na 1ª Semana Sénior que decorreu na última Quinta-feira no auditório Ramos Pereira, em Vila Praia de Âncora, sendo convidados o Prof. Emérito da Faculdade de Medicina do Porto, Sobrinho Simões, e Carla Faria, psicóloga, Directora da Escola Superior da Educação do IPVC.
O envelhecimento associado à longevidade, acarretou uma série de realidades, porque "vamos demorar muito a morrer", afirmou com algum humor Sobrinho Simões, mas que não deixa se ser pertinente abordar esta questão, se pretendermos viver mais anos "com qualidade".
Pior do que as doenças, são a "solidão e a insegurança", assegurou este médico especializado no cancro, uma patologia associada ao envelhecimento, perante uma plateia maioritariamente composta por pessoas ligadas às IPSS concelhias, professores e à Academia Sénior.
Ao apontar estas duas fragilidades - corroboradas por Carla Faria a que acrescentou o ambiente (nomeadamente o meio social) -, o conferencista que há muitos anos escolhe Vila Praia de Âncora para os seus períodos de férias e tempos livres, lamentou que "a nossa sociedade não esteja preparada para a longevidade". Na sua óptica, a "transformação do futuro do envelhecimento, começa logo de pequeno", caso contrário, manter-se-á esta sociedade "idadista", em que se discrimina desde logo as pessoas mais idosas. A propósito colocou a questão de se exigirem "quotas de género" para inúmeras situações - em que a política é um exemplo, refira-se - mas, "e as de idade?", perguntou. Isto levou-o a considerar ser "uma forma mais racista de deprimir as pessoas".
"Bem estar, autonomia e capacidade funcional" dos idosos, associados à "felicidade" ("as pessoas mais felizes vivem mais", garantiu), serão ingredientes para um envelhecimento ideal, difícil de conseguir, contudo, num país relutante em assumir um "altruísmo recíproco", e em que 1/5 da população vive em pobreza.
Se a alteração dos hábitos alimentares deve acompanhar o envelhecimento, para que "tenhamos menos chatices", precisou, este cientista e investigador, adiantou também que existem fundadas esperanças nos estudos realizados na Austrália, com cogumelos, como terapia para a depressão, uma das principais causas do definhamento dos idosos.
Apontou como um dos factores que contribuem para estados depressivos, "o desaparecimento dos nossos amigos e os outros ficam em casa", quebrando um convívio de uma vida inteira, com reflexos inevitáveis naqueles que ainda se movimentam e acabam de igual modo por sucumbir à depressão.
Neste sentido, Carla Faria chamou a atenção para a importância do "caring" (cuidar) - o que torna inclusivamente "mais humanos" quem trabalha nesta área -, mas que devem ser correspondidos por "quem deve deixar cuidar-se".
Ao longo do seu discurso abrangente, Sobrinho Simões tocou nalgumas das fragilidades de um Portugal que "gosta de tomar pastilhas e de se queixar", vincando igualmente a nossa falta de "bom-senso e inteligência crítica".
Neste percurso pelo processo de envelhecimento, em que foram dados exemplos pessoais de quem vive na plenitude das suas faculdades, dando como paradigmas a sua própria mãe (com 95 anos e vivendo autonomamente) ou Manuel de Oliveira (seu amigo) e Bertrand Russel - ambos já falecidos -, fruto desta capacidade de aumentar a esperança de vida, Sobrinho Simões manifestou, no entanto, o seu repúdio pela "utilização da genética para melhorar a espécie", uma espécie com uma evolução de muitos milhões de anos, sublinhou.
"Somos filhos das pessoas que foram muito competitivas" e tendo como base seres com genes semelhantes aos actuais, tendo apresentado uma imagem de um fóssil (trilobite de Arouca) - igual a outro descoberto no Canadá - com 400 milhões de anos, e possuidor de genes iguais aos de agora nos humanos, como prova da sua tese.
Durante as exposições de ambos e no final da conferência, o público teve liberdade para as comentar, pedir mais esclarecimentos e opinar sobre uma temática tão actual, uma vez que "conseguimos atrasar a morte…porque somos espertos", concluiu este investigador e conversador cativante.