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Moledo

Falecimento do presidente
da Comissão Administrativa
da Câmara de Caminha após o 25 de Abril

Faleceu no dia 9 de Agosto aos 94 anos, Horácio Benvindo da Silva, presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Caminha após o 25 de Abril, cujo elenco surgiu no âmbito do MDP/CDE, a quem competiu proceder à substituição da maioria dos Executivos camarários procedentes da ditadura.

O funeral realizado no dia seguinte decorreu com a maior discrição conforme era seu desejo.

Desde 6 de Novembro de 1974 até 12 de Dezembro de 1976 (data da realização das primeiras eleições autárquicas), Horácio Silva liderou o grupo que geriu nesse curto período a administração do concelho de Caminha.

Dessas eleições resultou vencedor o PS, pelo que Horácio Silvam concorrendo pelo PPD/PSD não conseguiu manter a presidência, embora lhe tenha sido entregue o pelouro das obras públicas.



Entrevista a Horácio Silva

Entrevista concedida em 2004 a alunos e a um professor da Escola EBS de Caminha, Paulo Torres Bento, por alturas da celebração dos 25 anos do 25 de Abril, ocasião em que visitou uma exposição dedicada ao tema na Galeria Caminhense e participou num debate aí realizado por iniciativa da escola.

HORÁCIO Benvindo da SILVA, 75 anos

Arquitecto de profissão e sem actividade política anterior ao 25 de Abril, o seu perfil moderado permite-lhe emergir no agitado PREC caminhense como a personalidade indicada para Presidente da Comissão Administrativa do concelho em Novembro de 1974. Cumprindo um mandato equilibrado mas com poucos meios para fazer obra, apesar das boas relações com o poder militar e civil da época, acabaria por se apresentar como o candidato natural do Partido Popular Democrático (PPD/PSD) nas primeiras eleições autárquicas em Caminha, vencidas pelo candidato do Partido Socialista, Pita Guerreiro.

O Arqº. Horácio Silva teve actividades políticas antes do 25 de Abril de 1974 ?

Nunca tive actividade política antes do 25 de Abril.

Onde estava no 25 de Abril de 1974 ?

Estava a residir definitivamente em Moledo de Minho desde há não muito tempo desse ano depois de vários anos de actividade profissional em Lisboa. Recebi a notícia através de um telefonema de Lisboa e nos dias seguintes segui a minha vida normalmente.

Como surge, alguns meses depois, o seu nome para Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Caminha ?

O meu nome surge para Presidente da Comissão Administrativa possivelmente por causa de um episódio anterior ao 25 de Abril : a propósito de uma questão particular, ameacei a Câmara Municipal com o Tribunal. A minha voz fez-se ouvir no Terreiro e, já depois do 25 de Abril, quando se colocou a questão da Comissão Administrativa, algumas pessoas, como o Diogo de Oliveira e o Luís Almeida (pai), acharam ser eu a pessoa indicada para seu Presidente.

Num primeiro momento não aceitei mas depois foi-me dito que o Presidente da Comissão Administrativa seria o então Tenente da Guarda Fiscal em Caminha e que eu seria apenas seu colaborador. Contudo, dias depois, numa sessão pública realizada no Teatro Valadares disseram-me que o dito oficial não podia ficar Presidente, pelo que não tive outro remédio senão aceitar a incumbência.

Como foi o clima de trabalho entre os diferentes vereadores da Comissão Administrativa ?

Após a tomada de posse e ao longo do mandato, o clima de trabalho ente os vereadores foi sempre bom. A propósito, é importante lembrar que o executivo não tinha qualquer vencimento, trabalhava-se por "amor à camisola" e eu, pessoalmente, até gastei muito dinheiro do meu bolso para actividades inerentes ao meu trabalho na Câmara !

O executivo tinha meios para exercer a sua actividade ?

Não tínhamos grandes meios, não. Nessa época era no Governo Civil de Viana do Castelo que se discutiam as verbas sempre que um Secretário de Estado trazia algum dinheiro para distribuir pelos municípios do Distrito. Apesar disso, havia então grande espírito de entreajuda e solidariedade entre os dez presidentes das comissões administrativas e recordo-me até de um episódio em que todos nós abdicámos da nossa parte de uma determinada verba em favor do então Presidente da Comissão Administrativa de Viana do Castelo, António Marta, para que este o pudesse aplicar no Porto de Viana, um equipamento de inegável interesse regional.

Como foram as suas relações com os militares, nomeadamente com o Governador Civil de Viana do Castelo ?

As relações que tive durante o mandato com o Governador Civil de Viana do Castelo foram sempre muito boas. O Comandante Paulo Teixeira tinha por mim um grande apreço e sempre me atendeu nos pequenos pedidos financeiros para resolver alguns problemas do concelho de Caminha. Ele telefonava-me mesmo quase todas as semanas a pedir-me conselho para esta ou aquela questão, por exemplo quando foi da criação dos GAT's.

Que obras foi possível fazer nessa altura em Caminha ?

Apesar das reduzidas possibilidades financeiras da época, foram-se fazendo algumas obras e melhoramentos no concelho de Caminha: o actual mercado de Caminha, o melhoramento das estradas nas Argas, a electrificação de muitas localidades do concelho, melhorias no abastecimento de águas, negociação de terrenos para a construção de diversas escolas (entre os quais o da Escola Preparatória, hoje EB 2,3/S de Caminha) e um projecto para a edificação de habitações sociais em regime de auto-construção que não foi possível concretizar por, entretanto, ter terminado o mandato.

Os partidos políticos interferiam na sua acção ?

Por vezes, os partidos políticos interferiam na acção da Câmara. De qualquer forma, relativamente aos acontecimentos políticos nacionais, como o 11 de Março ou o 25 de Novembro, os efeitos na nossa acção não foram significativos.

Recorda-se de um episódio em Janeiro de 1975 quando foi retirado do salão nobre da Câmara o retrato de Sidónio Pais ?

Recordo-me bem desse episódio. Alguns indivíduos assaltaram o salão nobre, retiraram o retrato de Sidónio Pais que estava aí exposto e andaram a passeá-lo pela vila de Caminha. Esses indivíduos foram identificados e levei-os a Tribunal depois de não aceder a vários pedidos das forças políticas locais para retirar a queixa. Ficou assim o problema entregue ao Tribunal.

Como foi o processo de organização das primeiras eleições livres para a assembleia Constituinte em Abril de 1975 ?

O processo de recenseamento e organização das primeiras eleições livres decorreu sem grandes atritos e, pelo contrário, com grande civismo.

Um ano depois, na campanha eleitoral para a Assembleia da República, recorda-se do episódio da passagem do General Galvão de Melo por Caminha ?

Durante a campanha eleitoral para a Assembleia da República em 1976, a passagem por Caminha do General Galvão de Melo, integrado na caravana do CDS, provocou protestos e tentativas de agressão no Terreiro. Por algum motivo, a intervenção do General Galvão de Melo não caiu bem entre as pessoas do concelho mas a questão passou ao lado do trabalho da Comissão Administrativa. Reparem que nesse mesmo dia estava eu a trabalhar em assuntos da Câmara, negociando os terrenos para a Escola Preparatória !

Entretanto, o Arqº. Horácio Silva surge como um dos fundadores do Partido Popular Democrático (PPD/PSD) em Caminha …

Estava eu há já algum tempo na Comissão Administrativa quando sou contactado pelo Dr.Torres Marques, de Seixas, para constituirmos em Caminha a secção local do Partido Popular Democrático (PPD), hoje PSD. Como o programa deste partido correspondia ao meu pensamento político, acedi, e foi então que, entre outros, eu, o Dr.Torres Marques e o José Emílio fundámos o PPD Caminha.

Mais tarde, nas primeiras eleições autárquicas em Dezembro de 1976, apresentei-me como candidato à Câmara numa lista de que faziam também parte o Capitão Osvaldo e o Sérgio Guerra de Morais. Quase não fizemos campanha mas elegemos três vereadores numa eleição que venceu o Partido Socialista e o seu candidato Pita Guerreiro.

Quando acabou o mandato da Comissão Administrativa na sequência dessas eleições, que balanço fez da sua acção ?

O balanço da acção da Comissão Administrativa foi muito positivo. Para além das obras mencionadas, muitos outros problemas foram resolvidos, nomeadamente de ordem jurídico-legal. Naquele tempo não havia juiz em Caminha e era eu, enquanto Presidente da Comissão Administrativa da Câmara, que tinha de fazer os julgamentos ! Ajudava-me o Dr.Fonseca, então no Tribunal, e só vinha um juiz de Viana para me coadjuvar nos julgamentos. Tudo sem qualquer vencimento !

Trinta anos depois desse tempo, ainda acha que valeu a pena a sua intervenção política na vida do concelho ?

Sim, a trinta anos de distância, acho que foi importante a minha intervenção política em Caminha. Ainda mais, ao longo de todos estes anos que se passaram, não vi nunca obras de interesse para a população caminhense que justificassem tantos e tantos milhões que foram gastos. Não se apostou eficazmente no desenvolvimento do turismo através do aproveitamento dos Vales do Coura e do Âncora ou da orla costeira, continuamos sem saneamento básico em muitas localidades do concelho e também não foram criados os necessários postos de trabalho para a população caminhense.


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