A instalação de uma rede de eólicas ao longo da costa de Póvoa de Varzim até Caminha tem suscitado uma série de reacções, quer de pescadores, quer de autarcas e ambientalistas.
Se a produção de energia através do aproveitamento do vento tem grandes vantagens ambientais e serve para a descarbonização, as consequências destes equipamentos nos bancos de pesca, nas espécies migratórias e na paisagem suscitam receios, desde logo no seio da classe piscatória.
Vasco Presa, presidente da Associação de Pescadores de Vila Praia de Âncora, confirmou-nos que não existe qualquer evolução sobre o estudo de impacte ambiental e social, embora já tenha sido disponibilizada verba para esse efeito.
Insistiu ser necessário avaliar bem as consequências deste projecto, porque "nós somos os mais afectados, e, com tal, já chegamos a um consenso entre as associações aqui do norte, porque esse espaço que vai ser retirado (proibição de pescar) às embarcações e face ao excesso de frota existente neste momento", poderá causar problemas graves, teme.
Em referência aos barcos de maior calado, a sua actuação poderia ser resolvida se houvesse meios de os fiscalizar, porque "há legislação para o efeito", atalhou, dando como exemplos o que sucede em Espanha, França ou Itália, "onde as leis são cumpridas e se for preciso alterá-las, alteram-nas, mas são cumpridas", insistiu.
Assinalou que existem 100 embarcações de caixa aberta, equivalendo a 400 pescadores na zona minhota, "todos nacionais e já de meia idade" sem autonomia para pescar além das seis milhas.
"Área restrita com excesso de aparelhos"
Os 600 km2 previstos para cercear a possibilidade de pesca devido à instalação das eólicas, vai concentrar inúmeros aparelhos de pesca na zona de intervenção das embarcações que operam nesta costa (nomeadamente no concelho de Caminha) e que apenas possuem um pouco mais de oito milhas para exercer a sua faina.
"Muito receio"
Vasco Presa receia pelo "impacto social enorme" que as restrições e concentração de turbinas eólicas produzirão, sem falar no "impacto ambiental", cujos estudos já realizados e que "ainda são poucos", frisa, não auguram nada de bom.
Teme-se pelo aquecimento da água junto ao fundo do mar, e o ruído produzido pelas turbinas reproduz-se por cinco através da água, o que origina "muito receio" junto da comunidade piscatória, acrescentou, ao poder provocar a debandada do peixe.
"Área de pesca na costa do concelho é a mais pequena do país"
Contudo, aponta como principal preocupação para os pescadores "a falta de espaço para trabalhar" até às 5/6 milhas, área que ficará "sobrecarregada" com os aparelhos de pesca de outros barcos compelidos a utilizar estes espaços, além de poderem utilizar outras áreas mais afastadas da costa, coisa que "não nos permitem", lamentou.
Segundo foram informados pelos colegas de Viana, "não é por coincidência que as espécies desapareceram das águas" onde já foram colocadas eólicas, razão de aumentarem os seus receios em relação ao que possa suceder na costa do concelho de Caminha. Teme ainda pelas alterações que possam suceder na zonas de passagem (correntes) dos peixes migratórios, cujos ruídos poderão ser nefastos, nomeadamente para os peixes da "cadeia alimentar, porque, por serem mais pequenos, poderão ser afectados".
"Não vamos ter espaço para que todas as embarcações trabalhem"
Colcando a questão a Vasco Presa, sobre se preferia ser indemnizado para não pescar ou poder continuar a exercer a sua actividade, respondeu-nos que "queria ser indemnizado e ter espaço para pescar". Explicitou que a indeminização equivaleria aos "impactos sociais" que este parque eólico produziria ao "limitar as áreas de trabalho" nos espaços ancestrais onde sempre actuaram, e sabendo que não é cumprida legislação de controle de pesca e de aparelhos, a concentração seria nefasta, impedindo, por consequência, uma movimentação consentânea com o exercício da pesca.
"É uma tradição de séculos que se poderá perder"
A questão das eólicas já vem sendo acompanhada pela Associação de Pescadores de Rio e Mar de Caminha "há um ano", confirmou-nos o seu presidente Augusto Porto, e concedeu um parecer "não favorável conjuntamente com a Junta de Freguesia de Caminha", do qual deu conta à Câmara Municipal, posição que se manterá, "a não ser que sejam tidos em conta os interesses dos pescadores, da vila e do concelho".
Os pescadores receiam que as zonas de concentração e migração de peixe possam ser afectadas pela instalação das geoturbinas e cabos a 10 milhas da costa, motivo pelo qual "esta situação está a ser revista pela Direcção-Geral de Pescas e Governo para que a área seja mais diminuta", caso contrário a pesca seria seriamente reduzida, temendo que isso poderia representar "o fim da pesca".
Reconhecem que esta área norte do país "é excelente para a produção de vento e os aerogeradores terão uma capacidade maior de produção", mas acreditam que igual produção poderá ser atingida com menos área de parque eólico, para o qual previam mais de 600 km2.
Aguardam pelos estudos que se encontram a ser levados a cabo pela comunidade científica e diversas entidades ligadas ao Estado, de modo a que "sejam salvaguardados os interesses dos pescadores, bem como outras actividades que serão afectadas".
Apesar de lhes dizerem que o impacto será mínimo, "só o tempo é que poderá dizer, existindo ainda muitos pontos de interrogação porque ninguém sabe responder".
Em referência à informação de que o parque instalado em Viana do Castelo poderá receber toda a anergia a produzir nas turbinas eólicas a instalar a norte deste ponto da costa, fez questão de vincar que o cabo que as ligará "poderá adensar mais" a sua preocupação.
Agusto Porto acentuou que o que os pescadores pretendiam era que "a energia não afectasse nada a pesca, mas isso é impossível num mundo global como o actual, e reconhecemos que a energia limpa faz falta", razão de pretenderem ser compensados pelo impacte que o projecto que será em breve colocado em auscultação pública possa causar. Vincou que "90% das pessoas (mais de 400 homens) que se dedicam à pesca (existem 150 barcos entre Caminha e Viana do Castelo) não sabem fazer mais nada e é uma tradição de séculos que se poderá perder".
Alertou que o próprio turismo poderá ver alterada a sua configuração, com consequências nefastas para a economia local, caso a pesca seja reduzida.
"As coisas estão ainda a decorrer"
O NUCERTES, com uma direcção renovada a rejuvenescida, acompanha este processo com preocupação, como nos referiu Joana Cravo.
A presidente desta associação de Vila Praia de Âncora admitiu ao C@2000 que em princípio "seríamos contra", mas receia que seja impossível travar este processo, esperando apenas que haja possibilidade de "alterar as áreas escolhidas".
Marcaram presença na reunião realizada em Caminha a fim de obterem mais esclarecimentos, e reconhece que o NUCERTES "mantém uma posição ainda um pouco passiva e é a melhor alternativa possível neste momento", atendendo a que "as coisas estão ainda a decorrer e não queremos que a associação tenha uma cor política".
"O que está aqui em causa é para nós inegociável!"
Solicitamos uma opinião à Corema sobre este tema que se está a revelar polémico, apesar da importância das energias verdes. Esta foi a sua posição.
Assembleia Municipal toma posição
A CDU avançou com uma moção contra a forma como o projecto da criação de um parque eólico na nossa costa se estava a processar, a qual foi discutida na Assembleia Municipal de 29 de Junho.
A proposta acabou por ser reorientada e aprovada por consenso pelas quatro forças políticas representadas nesta órgão autárquico, exigindo a "suspensão" deste processo, dentro de uma perspectiva de aproveitamento de energia eólica, tendo em conta "o espaço marítimo e o interesse da nossa comunidade".