As cerimónias do 25 de Abril deste ano centraram-se num concerto ("Canções de Abril") realizado na véspera da data libertadora do fascismo no Cineteatro dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora, seguindo-se no dia seguinte as habituais cerimónias do hasteamento da bandeira nacional na Praça da República, em Vila Praia de Âncora, e nos Paços do Concelho, em Caminha, concluindo-se a celebração da data com a sessão solene ("cerimónia protocolar") da Assembleia Municipal no Cineteatro Valadares, em que todos os representantes dos partidos com assento parlamentar e os presidentes da Câmara e da AM usaram da palavra.
"Caminhenses, não foi para isto que a Revolução de Abril se fez"
O BE usou a expressão "guerra civil" (entre aspas, como fez questão de indicar através de linguagem gestual, Abílio Cerqueira) para expressar o estado actual do país, recordando ainda aos caminhenses que "não foi para isto que a Revolução de Abril se fez".
"Abril foi e é Revolução"
A CDU, por intermédio do seu deputado municipal Celestino Ribeiro, referindo-se à situação actual em Caminha, lamentou "o vazio opositor que sobrevive no mediático espaço do patrocínio ao atropelo das engrenagens políticas".
"Temos de pensar sobre o que já fomos"
A OCP, por intermédio da vereadora Liliana Silva (a voz dos quatro representantes desta coligação presentes nesta AM: um deputado municipal, dois presidentes de junta e uma segunda vereadora) fez o panegírico do jornal Caminhense baseada em notícias insertas nesse periódico agora mensal, desde uns anos antes do 25 de Abril até sensivelmente à primeira comissão administrativa da Câmara de Caminha após a revolução, liderada pelo social-democrata Horácio Silva.
"Criou-se uma sociedade livre e plural"
Coube a Paula Aldeia, líder do grupo parlamentar socialista caminhense, intervir nessa sessão em sua representação, realçando um município "onde as perseguições deixaram de existir. Onde não se pretende governar quando não se recebeu o aval popular para isso".
"Sou filho de um Portugal livre e democrático"
Já Rui Lages, presidente da Câmara de Caminha, intitulando-se filho de Abril, dado ter nascido alguns anos após o derrube da ditadura "opressora e fascista", incluiu nessa descendência o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública e o sonho que comanda a vida de um país "sem guerras, sem colónias, sem censura".
Exortação da Liberdade
Encerrando a sessão, Manuel Luís Martins, presidente da AM, exortou a liberdade resultante do 25 de Abril, no país e no concelho de Caminha.
Orfeão de Vila Praia de Âncora colaborou
Esta AM teve a colaboração especial do Orfeão de Vila Praia de Âncora orientado pelo director artístico Francisco Presa, cantando um tema de Fernando Lopes Graça e outro de Zeca Afonso a abrir a assembleia que teve reflectida no écran do cine-teatro imagens do 25 de Abril acompanhadas de uma canção de Chico Buarque de Holanda, intitulada Fado Tropical, em que Brasil e Portugal se confundem ("Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal") pela voz do autor e de Carlos do Carmo.
No final da sessão evocativa do 25 de Abril, o Orfeão, do cimo dos camarotes, e os presentes na sala, cantaram em uníssono o Grândola Vila Morena.
Canto Livre no Cineteatro de Vila Praia de Âncora
Como referimos inicialmente, as celebrações deste ano iniciaram-se com um espectáculo produzido pelos músicos caminhenses José Paulo Ribeira e Paulo Baixinho na noite de 24, em que jovens intérpretes e músicos naturais ou residentes no concelho de Caminha, recrearam temas de resistência à ditadura e de exaltação à liberdade conquistada, da autoria de alguns dos nomes mais conhecidos da música popular portuguesa. Todas as canções eram precedidas de gravações, imagens e reportagens desses dias, encimadas por frases de diversos autores enfatizando a Liberdade e a importância de não a perder, porque reconquistá-la, pode não ser assim tão fácil.
Integrou-se neste concerto a Escolinha do Etnográfico de Vila Praia de Âncora, acompanhando através da dança, um tema popular de José Afonso, "Maria Faia", adequado às características do folclore que pauta a actividade cultural deste grupo ancorense.
Foram intérpretes nas vozes Diogo Brás, Evita Brantner, Marco Brantner, Paulo Baixinho, Tânia Esteves e Tiago Garrinhas, e nas músicas, Joaquim Ribeiro, Paulo Franco - "o homem dos sete instrumentos", como o apelidou Paulo Baixinho na apresentação final, e ainda Ricardo Costa.
A presença destes jovens em palco num acto marcadamente político, embora a cultura estivesse indelevelmente subjacente, permitiu ao C@@000 falar com dois deles sobre esse momento:
"Claro que sim!"
A ancorense Tânia Esteves confirmou-nos terem sido convidados pela Câmara Municipal de Caminha a "participar neste espectáculo - embora nós já sejamos praticamente prata da casa e um grupo de amigo e de músicos", pormenorizou esta solista.
"Claro que sim!", respondeu-nos categoricamente quando lhe perguntamos se o 25 de Abril lhe dizia alguma coisa, face à sua geração já um pouco distante dessa data.
Acrescentou que já tinha tido oportunidade de falar noutra situação sobre a sua participação neste espectáculo, porque, justificou, "orgulho-me imenso de ainda poder fazer parte da geração que tem um bom testemunho para trás".
Apesar desse sentimento altamente positivo relativamente ao 25 de Abril, "espero que não se volte a repetir", afirmou-nos, porque seria sinal de que tínhamos perdido o que foi conquistado nesse dia.
Contudo, "sinto que esse testemunho vai acabar por se perder, mas nós somos aqueles que têm a responsabilidade de o manter, para que os mais jovens consigam perceber aquilo que foi realmente o 25 de Abril".
Uma alusão emblemática ao Zeca Afonso da parte desta cantora no final do espectáculo, deveu-se ao facto de "ter sido ele próprio a fazer a grande revolução a nível musical, através das suas letras e nós não nos podemos esquecer disso", acentuou convictamente.
"Se não fosse este dia eu não poderia exercer a minha profissão livremente"
Um músico alentejano que já se considera um caminhense, por ter casado cá e viver na vila de Caminha, a quem pedimos um comentário à sua participação nesta sarau, foi Tiago Garrinhas.
Este profissional da música e do teatro, free-lancer, revelou-nos que "este dia é muito importante para mim", porque, acentuou, "se não fosse este dia eu não poderia exercer a minha profissão livremente".
Perante as suas palavras, perguntamos-lhe o que sentia um cantor ao interpretar estas canções de protesto e liberdade, respondendo que "acima de tudo é uma grande responsabilidade", atendendo a que "há certas músicas que não são só uma música, são mensagens, histórias, marcos na vida de muita gente".
Recordou ainda o que uma sua colega tinha referido: "são coisas que marcam muitas gerações e ainda temos a felicidade de termos muitas delas presentes, connosco, que presenciaram e viveram isso", levando-o a acrescentar que essas canções "marcam os nossos dias e estados de espírito".
Neste sentido, Tiago Garrinhas afirmou-nos que "nem consigo imaginar o peso que estas canções têm para as gerações dos meus pais e avós", daí o falar da "grande responsabilidade, porque nós não temos esse peso e devemos tentar adquiri-lo através das nossas vivências com eles".
E quanto aos jovens de hoje? O que pensam do 25 de Abril? É uma coisa já ultrapassada? Perguntámos-lhe.
"Não. O conceito de liberdade é uma coisa que nunca está desactualizado. E independentemente de as pessoas não a conseguirem compreender ou definir, vão sabendo o que é por conseguirem fazer as coisas que gostam e, a pouco, vão-se apercebendo que a liberdade deles acaba quando começa a liberdade de outro".
"Tinha a noção de que ia acontecer qualquer coisa"
Luís Mourão, anterior presidente da Assembleia Municipal, presenciou todos os actos comemorativos do 25 de Abril no concelho de Caminha.
"Gostei muito. Imenso", declarou ao C @2000 no final do concerto em Vila Praia de Âncora.
Aproveitamos para falar um pouco sobre esse dia que ele viveu intensa a apaixonadamente, porque "eu estava no Largo do Carmo, em Lisboa, às 7H30", recordou.
Foi almoçar e "voltei às 15H30 e vi passar o Marcelo Caetano mesmo à minha frente".
"Até fui filmado", mas como havia tanta gente no local, "nem se nota a minha presença", contou-nos.
Confirmou-nos que antes do 25 de Abril, e face aos seus contactos nos meios oposicionistas, havia indícios de que algo poderia acontecer mas, "só os que estavam dentro do assunto é que sabiam" ao certo do que se preparava.
Teve conhecimento das movimentações militares logo de madrugada, pelo Rádio Clube Português, porque "eu punha-me a pé muito cedo porque ia trabalhar às oito horas e às sete já estava a pé, e como morava perto do Largo do Carmo", partiu de imediato para lá.
Perguntando-lhe o que sentira quando se apercebeu que a ditadura tinha os dias contados, não hesitou em dizer que "senti uma alegria enorme. Inimaginável!". Porque os portugueses já se tinham resignado que "isto nunca mais acabava", nem "havia informação suficiente" de que o regime estava por pouco, a despeito dos indícios existentes.
Quase 50 anos depois da libertação, Luís Mourão vincou que "a liberdade continua, mas como dizia Jean Jacques Rousseau, perdê-la é fácil, recuperá-la é muito difícil".