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Vilar de Mouros

Tradição do Almoço dos Reis
resiste à voragem dos tempos

Mesmo perante um mês de Janeiro muito chuvoso e que obrigou a cancelar algumas digressões nocturnas pelos fogos da freguesia cantando os Reis, o Grupo das Reisadas conseguiu reunir um pecúlio assinalável - fruto dos donativos generosos dos vilarmourenses - que permitiu manter a tradição do Almoço dos Reis, reunindo largas centenas de convivas num repasto comunitário, em que o Arroz de Sarrabulho pela mão do mestre Fiúza é rei.

Os participante apenas têm de levar os talheres, bebidas e alguma sobremesa (porque a organização consubstanciada no Centro de Instrução e Recreio Vilarmourense também disponibiliza leite creme) a fim de comungar nesta festa iniciada há muitos anos no antigo Clube.

"Quem corre por gosto, não cansa"

Ricardo Ranhada, presidente do CIRV, cargo que espera poder renovar por mais dois anos já no próximo mês, falou com o C@2000 na altura em que os convivas iam chegando à sede da colectividade, esperando que António Maria Fiúza e os seus ajudantes masculinos e femininos dessem os últimos retoques no "prato do dia", confeccionado nas instalações da antiga estufa, dizendo-nos que contava com bastante participação, até porque "com a paragem provocada pela pandemia, as pessoas vão comparecer", alicerçado pelo facto de terem sido recebidos "por mais gente" quando entre "20 a 24 vilarmourenses" andaram a calcorrear os caminhos da aldeia nas noites do início do ano.

"O trabalho é o mesmo", confirmou-nos, embora com mais participação, e em consequência "a logística aumenta", à qual "já estamos habituados", além de "quem corre por gosto, não cansa", apesar de admitir ao C@2000 que as raízes familiares o ligam muito a esta colectividade e a este evento.

Vincou que a sua presença à frente dos destinos do CIRV é justificada pela tentativa de que "isto não acabe", louvando a coesão da sua direcção e "conseguindo tudo muito bem, juntos", o que "também ajuda". Como tal, fez votos para que "ninguém vá embora" e esperando que "as pessoas dêem cada vez mais atenção às colectividades".

Aproveitou para galvanizar os sócios no envolvimento das actividades da associação, porque "há muito a fazer, mesmo em termos de obras", designadamente na cozinha onde é preparado este repasto e que "não sofre obras há muitos anos".

O telhado em amianto é um dos busílis desta associação vilarmourense, contando poder obter apoio da Câmara Municipal, com a qual iria reunir proximamente, uma vez que a sua remoção "será o maior investimento a realizar aqui", chamando a atenção para a subida de todos os preços depois da pandemia.

Embora da parte dos cozinheiros se lamente a falta de interesse dos jovens para prosseguirem esse trabalho, Ricardo Ranhada até evidenciou alguma satisfação pelo envolvimento de pessoas "entre os 25 e trinta e poucos anos que nos têm ajudado", contribuindo para o aumento do Grupo dos Reis, assinalando, contudo, o facto de "não haver muitos jovens na freguesia que gostem disto".

Passeio de jipes a 29 de Abril

Deu como exemplos das actividades programadas para os próximos tempos, um passeio de jipes marcado para 29 de Abril, além de um passeio de motinhas e uma descida do Rio Coura de paddle em perspectiva, no intuito de "chamar mais jovens para este tipo de actividades", concluiu.

40 anos na cozinha

Na cozinha, à azáfama inicial de preparar as carnes, deitá-las nos caldeirões com todos os condimentos e acender o lume, seguiu-se um período de alguma acalmia, apenas com o olho no arroz, a parte mais delicada da preparação, conforme nos revelou o veterano António Fiúza, com 76 anos, que há cerca de quatro décadas integra esta equipa, cabendo-lhe agora orientar os outros três cozinheiros a quem um dia dará o lugar, tal como os "velhinhos" (João Casal, João Violanta e o Mário Ranhada, alguns dos nomes que recordou nesta ocasião) fizeram com ele.

"Cada vez que se fazia, era uma prova"

"Foi-se aprendendo", indicou quando lhe perguntamos se lhe tinha custado entrar nesta confecção para centenas de convivas, o que não é tarefa fácil, daí a importância de estar sempre com atenção na cozedura do arroz, cuja qualidade também é relevante à hora de o preparar.

300 quilos de carne de porco, 25 de arroz, mas, no momento em que o entrevistamos, "ainda estou na corda bamba", confessou, porque "depende do pessoal que chegar", embora com o Covid fora ("graças a Deus"), as expectativas eram boas.

"É o que calha"

Luísa e Júlia atarefavam-se na preparação da salada e corte dos limões que acompanhariam o arroz de sarrabulho, uma dedicação de longa data e que fazem com todo o gosto, "desde o tempo do Mário Ranhada", recordou a segunda.

Contudo, para além das saladas, "trabalhamos com tudo", revelaram, porque "gostamos muito disto" e "não devia acabar", assim o desejam. Contudo, "esta geração mais nova…huumm….não vejo muito interesse", teme Júlia.

Deste pessimismo não comunga Luísa, ao ver "esta mocidade a servir às mesas", desabafou e "pode ser que….se consiga renovar isto, porque as pessoas também se vão desgastando e uma pessoa também trabalha uma semana inteira e nós já não somos crianças", avisou.

Rui Lages estreou-se no Almoço dos Reis

Na função de presidente da Câmara Municipal de Caminha, Rui Lages, em declarações ao C@2000, na altura em que cavaqueava com o pessoal da cozinha, frisou "ser sempre importante estar junto da nossa comunidade e daqueles que são os partícipes" desta festa vilarmourense.

"Sempre que tenho oportunidade de estar junto dos movimentos associativos, não perco a oportunidade", ainda no intuito de "ouvir os nossos cidadãos e ver quais são as suas preocupações", a par de "partilhar momentos de alegria e que também fazem falta".

Recordamos-lhe a sua presença num outro momento de alegria comunitária, como sucede em Riba d'Âncora, igualmente, ou em Seixas, concordando que "a comunidade é isto mesmo, são as forças vivas quando se juntam e é bom vermos que as associações estão vivas e existe dinamismo nas próprias freguesias, o que é uma honra para o presidente de Câmara", assume.



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