O Etnográfico de Vila Praia de Âncora teve uma feliz e bem-sucedida escolha para assinalar os 47 anos da sua fundação, ao representar no passado Sábado no palco do Cineteatro dos Bombeiros Voluntários, uma série de cenas evocativas das vivências do dia-a-dia da zona piscatória da vila, culminando cada uma com a actuação dos seus dançarino(a)s acompanhados pela tocata deste grupo.
A vida quotidiana dos pescadores e suas famílias, entrecortada com as fainas diárias ao mar, preparação das redes e colocação de isca nos anzóis, venda e arrematação do pescado, distribuição do apuro entre os componentes da embarcação, os momentos de ócio diluídos entre as conversas no Portinho e uma suecada acompanhada por uma malga de vinho nas tabernas típicas da antiga Gontinhães e que ainda chegaram aos dias de hoje, a vida no lar, a incerteza da decisão entre permanecer na sua terra ou ir tentar melhor sorte nos bancos da Terra Nova, os momentos trágicos dos naufrágios e os velórios das vítimas (momento forte e vincadamente representado pelas actrizes vestidas de negro com uma luz incidindo nos rostos, gerando um momento de profunda empatia com os espectadores naquele cenário de reflexão em memória dos náufragos), as procissões em honra de Nª Sª da Bonança e a ligação à Sª da Ínsua, a linguagem vernácula utilizada, pois tudo isto contribuiu para o sucesso da opção tomada neste aniversário do Etnográfico.
"Vivências ao longo de décadas"
Sérgio Insuelas Carrilho, mestre do barco (Zé do Apache) nesta encenação, em resposta a uma pergunta colocada pelo C@2000 no final do espectáculo que encheu a plateia do cineteatro, se aquela tinha sido uma "boa faina", não hesitou em responder-nos que efectivamente tinha sido "uma faina gratificante e espero que tenha chegado ao coração das pessoas", nesta aposta do Etnográfico em "homenagear os pescadores, os homens do mar, a comunidade do Portinho".
Pretenderam com esta encenação animada pelas danças e canções do repertório do grupo ancorense, reabilitar uma comunidade enraizada em Vila Praia de Âncora, talvez um pouco esquecida nos dias de hoje, revelou-nos, recordando que aquando da sua fundação, esta zona marítima mereceu desde logo um lugar de destaque, apesar da parte rural de Gontinhães ter sido a base do folclore.
De modo a levar ao palco esta representação, foi necessário realizar "pesquisa", admitiu Sérgio Carrilho, "conversar com pescadores e suas mulheres", na tentativa de fazer textos e recolher "histórias", nomeadamente "do pessoal que foi para o bacalhau", na tentativa de "aglomerar tudo, razão de pretendermos com este espectáculo não nos focarmos unicamente numa única época".
Todo este trabalho demorou dois meses, até que foi possível "preparar" este espectáculo que representou um sarau inesquecível, há que reconhecê-lo, concretizado com "muita carolice e por nossa livre e espontânea vontade", vincou, além de ter significado "muito sacrifício, porque a maior parte do pessoal trabalha", o que obrigou a um equilíbrio ("meio termo") para que "nos encontrássemos e trabalhássemos".
Bonança Domingues, uma das integrantes do Etnográfico e participante neste espectáculo, não se considerou "nem mais, nem menos importante" do que os demais, evidenciando somente contentamento pelo seu contributo para o sucesso deste aniversário, além de "ser sempre bom participar e mostrar aquilo que nós fazemos".
"É sempre enriquecedor e aprendemos coisas novas", admitiu esta componente do grupo, insistindo ainda na importância de poderem resgatar "vivências que nós já não conhecemos", depois de terem falado "com pessoas de mais idade" e que passaram por elas, o que permite ainda "deixar um legado para as gerações vindouras".
Pronunciando-se sobre o momento que mais a marcou nesta representação, não hesitou em apontar a "tragédia" resultante do naufrágio.
E, confiante no futuro do Etnográfico, apontou para "mais 47 anos" de vida. Ou "o que for preciso", rematou.
"Inexcedíveis"
Este momento significativo na vida da associação, levou o seu presidente José Meira a admitir que "honramos o legado deixado", assim como os "ex-elementos que hoje também estão aqui" e os que permanecem no activo, "com muito ou pouco tempo no Etnográfico", considerando terem sido "inexcedíveis nestas últimas três semanas", aproveitando ainda para agradecer à Junta de Freguesia e à Câmara Municipal.
"Um grupo genuíno"
"Foi muito lindo, comovente e - como disse aquela menina - até arrepiante", exclamou Carlos Castro, presidente da Junta de Freguesia, no final do sarau, motivo que o levou a agradecer o todos os que compõem o Etnográfico.
Neste dia de aniversário, o autarca recordou todos os que contribuíram para engrandecer o grupo ao longo destes 47 anos, "com uma enorme paixão", o que permitiu torná-lo num "embaixador das tradições e das gentes do Vale do Âncora", quer do mundo rural, quer da pesca, revelando ser "um exemplo do que deve ser o folclore".
Castro enalteceu ainda a forma como todos "criaram fortes laços" com a comunidade ancorense, não esquecendo o seu grande fundador, José Augusto Meira, e enalteceu a participação dos miúdos e jovens no início do espectáculo.
"Falar da etnografia é falar da alma de um povo"
Da parte da Câmara Municipal de Caminha, o seu presidente Rui Lages acentuou que "ficou bem demonstrado que é motivo de orgulho" recordar as tradições e "a nossa essência", ao contrário do que poderia suceder no passado.
"Se nós queremos saber para onde queremos ir, temos de olhar para trás", frisou o autarca caminhense, entendendo que no palco do Cineteatro ancorense "vimos a nossa cultura e a dificuldade que era estar no mar e de quem ficava em terra", sem esquecer "as devoções religiosas" de Vila Praia de Âncora.
Manifestou o seu agrado pela forma como tinha sido retratadas durante hora e meia "vivências de muitas décadas, de sofrimento, mas também de alegria", vincando ainda que nunca tinha visto naquele palco um espectáculo que "me fez sentir tão nosso" como o daquela noite.
Aproveitando a participação relevante do Etnográfico no projecto das "Mordomas/Moyordomos" que passou pelo concelho, Rui Lages ofereceu um livro ao presidente do Etnográfico e a todos os elementos do grupo, bem como ao presidente da Junta de Freguesia para que "fique no espólio da freguesia", justificou a oferta.