Abordar, pelo método reflexivo, ou pela análise objetiva, uma qualquer situação da sociedade contemporânea, ignorando o papel que as atuais gerações de jovens, devem vir a desempenhar no futuro, significa uma apreciação parcial com conclusões insuficientes e, eventualmente, inadequadas, senão mesmo erradas. A juventude constitui o mais valioso património dos recursos disponíveis, em qualquer parte do mundo.
Nenhum governante, dirigente: público, privado, cooperativo, formal ou informal, pode dispensar esta força imensa de vitalidade, voluntarismo, generosidade, irreverência e de conhecimentos teóricos, ao nível, por exemplo, das mais avançadas tecnologias, dos idiomas, da investigação científica.
Pelo contrário, convocar os jovens à participação na vida ativa das comunidades em que se inserem, revela-se uma decisão do maior alcance, quanto às consequências positivas que, num futuro não muito distante, se farão sentir, justamente, quando eles estiverem nos diversos poderes.
Se, na gíria popular, os idosos são a "reserva da nação", não há dúvida alguma que os jovens são o futuro promissor, dessa mesma nação. Independentemente das gírias e dos adágios populares, a verdade é que a juventude, constituída pelas gerações mais novas, se prepara para enfrentar, com sucesso, um futuro que, em absoluto, ninguém consegue prever como será, muito embora, em determinados domínios, seja possível avançar algumas conjeturáveis situações, em função da evolução de certas variáveis. Além disso, ao nível científico e tecnológico em concreto, e no âmbito das ciências exatas, é possível estabelecer alguma previsibilidade, ainda que admitindo percentagens mínimas de erro, numa perspectiva de erro calculado.
As ciências humanas, pese embora a seu favor um certo estatuto científico, sempre terão alguma dificuldade em prever os comportamentos humanos, suas consequências e como alterá-los.
Os valores ético-morais, socioprofissionais, culturais, religiosos, empresariais e tantos outros, que hoje são transmitidos aos jovens, podem não ser aceites na sua totalidade, nem tão pouco na sua formulação conceptual, e ninguém pode garantir que, no futuro, os jovens de hoje, dirigentes de amanhã, não alterem a atual estrutura e composição hierárquico-axiológica.
Tais preocupações, previsões ou suspeições, não terão grande importância desde que, nesse futuro, mais ou menos próximo, os jovens de hoje, consigam construir um mundo melhor, para eles e, nessa altura, para os seus pais e avós.
Esse mundo melhor, pode ser encarado por diversas vertentes, que os jovens não devem descurar, como por exemplo: o respeito e todo o apoio possível aos mais idosos, os quais, jamais, poderão ser descartáveis; a preservação de famílias sólidas, fundadas nos valores do amor, da felicidade, da segurança e defesa; o diálogo entre as diferentes comunidades, nacionais e de migrantes, dando a estes o auxílio de que tanto carecem no início das suas adaptações. Enfim, um novo mundo estará no querer destas novas gerações, já altamente qualificadas em teorias e algumas experiências de trabalho e de vida.
Na verdade, no curto e médio prazos, não parece crível que certas instituições e valores, pura e simplesmente desapareçam: Deus-Igreja Família-Lar, Estado-Território; Escola-Educação; Paz-Segurança, Saúde-Conforto físico e mental, Amor-Felicidade, e tantos outros, continuarão a ser realidades pelas quais os futuros dirigentes se esforçarão por aperfeiçoar, dadas as caraterísticas de sociabilidade que, entre outras, entram nos critérios de definição da pessoa humana.
Com efeito: "O homem, em geral, já nasce como membro de um grupo: a família. À medida que vai vivendo, passa a pertencer a outros, como: grupos de amizade, de vizinhança, escola, igreja, cidade, grupos profissionais, expandindo assim seu mundo individual. (…). Vivendo em sociedade, o homem, que ao nascer possui apenas a natureza biopsiquica, adquire a natureza social, formando e desenvolvendo sua personalidade. Além disso, o homem cria cultura e, através desta, satisfaz suas necessidades e adapta-se ao meio ou adapta o meio a si, modificando-o." (TORRE, 1983:44).
Preparar as novas gerações com as ferramentas da integração, numa sociedade em permanente competição e mutação, é um desígnio universal que, sendo cumprido, vai beneficiar a humanidade em geral, em qualquer parte do mundo, onde existam seres humanos.
Naturalmente que nenhuma entidade pública, ou privada, se deve sobrepor às instituições tradicionais, com mais autoridade moral, com mais influência na educação-formação dos jovens, ainda que, os responsáveis por tais instituições, provavelmente, nem sempre tenham especialização adequada para educar-formar em certas atividades, o que a verificar-se, terão de intervir, em tempo oportuno, as organizações públicas e privadas, especializadas nos diversos domínios da socialização.
Considerando o tempo biocronológico, que vai decorrendo ao longo do desenvolvimento ontogenético, bem como da evolução filogenética, naturalmente que a primeira grande instituição, em que a pessoa humana fica integrada, durante cerca de um quarto da sua vida, é a família, no seio da qual decorre a primeira fase da socialização da criança, do adolescente, do jovem e em certos aspetos, também do adulto, embora, sequencialmente, surjam novas instituições.
Isto mesmo se aceita porque: "É na família que cada ser adquire as bases do comportamento, da identidade sexual, das noções de direitos e deveres e ainda dos modos pelos quais lida com afectos e emoções (amor, ódio, desprendimento, egoísmo …) Outra função básica da família é a de preencher as necessidades amorosas e de ajuda mútua entre adultos. Daí a importância do casamento, da união, que por mais dificuldades que apresente na vida em comum dos cônjuges, nunca pessoa alguma conseguiu descobrir melhor substituto para ele." (RAMAZZINI, in: CARVALHO, 1994:79-80).
Simultaneamente, com a família, ainda bem cedo na vida da criança, outras instituições, igualmente importantes e fundamentais na formação da personalidade da pessoa humana, na sua socialização, e consequente integração na comunidade, surgem com uma intervenção específica: a escola para a educação-formação para o mundo material do trabalho e das atividades socioculturais, profissionais, políticas e outras; a Igreja vocacionada para a formação moral, espiritual e também ética, através da transmissão de valores essenciais como são a fé, a religião, Deus, caridade, o dever, entre outros.
Na verdade: "A Igreja se oferece para colaborar com os homens de boa-vontade a serviço do homem. (…) Todos os esforços são insuficientes sem a Igreja. A técnica moderna, as descobertas científicas, as filosofias racionalistas, a sociologia empírica, os sistemas económicos, as associações internacionais não solucionarão o problema enquanto não incluírem em suas aspirações a realidade total que é o homem, ser social dependente de Deus com um destino eterno." (GALACHE-GINER-ARANZADI, 1969:178-79).
Bibliografia
CARVALHO, António César Perri de, (Org.). (1994). A Família, o espírito e o tempo. São Paulo: Edições USE - União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo
GALACHE - GINER - ARANZADI, (1969). Uma Escola Social. 17ª Edição. São Paulo: Edições Loyola
TORRE, Della, (1983). O Homem e a Sociedade. Uma Introdução à Sociologia. 11ª Edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional