Apesar de há cerca de um ano o Centro de Saúde de Caminha ter passado a designar-se Unidade de Saúde Familiar, na perspectiva de que iria funcionar melhor, continuam a verificar-se carências e repetem-se as mesmas deficiências do passado recente.
Em Vila Praia de Âncora funciona desde 2008 uma Unidade de Saúde Familiar sem que existam os reparos que os utentes apontam em Caminha. Ao fim de um ano, esta USF subiu de escalão, após ter sido aprovada a sua competência, levando a que os profissionais passassem a ser melhor remunerados, o que necessariamente os motivaria e permitiria que dessem horas a mais sempre que necessário.
Desde as seis da manhã
Uma senhora veio de Dem, de carro, e postou-se à portas do edifício do Centro de Saúde de Caminha, a partir das seis menos dez da manhã da passada Quarta-feira, no intuito de garantir uma consulta aberta com a sua médica de família. Outra utente residente em Vilar de Mouros, chegou ao Centro de Saúde pelas seis horas com o mesmo objectivo: conseguir uma consulta aberta "porque só estão a marcar consultas para Setembro", lamentou, depois de ter desistido de marcar um atendimento médico por telefone: "Não vale a pena. Não atendem. Já experimentei a todas as horas e não atendem", contou-nos, desiludida com o funcionamento desta unidade de saúde a quem deram o nome espantoso de Unidade de Saúde Familiar da Foz do Minho. Esta vilarmourense insistiu que "ao menos podiam atender o telefone para sabermos se havia consultas abertas ou não", sem necessidade de se deslocar a Caminha e correndo o risco de não ser atendida.
"As pessoas merecem mais"
Rogério Silva, de Afife, já estava habituado ao seu médico de família há muitos anos e manteve-se por cá (tem família neste concelho), apesar desse clínico se ter reformado há sete meses. Contudo, presentemente, não tem médico de família o que lhe coloca dificuldades, dando como exemplo "um problema urgente" que pretende tratar, mas sem um médico de família "as coisas complicam-se mais um bocado".
Recentemente teve de ser submetido a uma intervenção cirúrgica e pretendia obter as informações adequadas de como deveria proceder no período pós-operatório, mas não conseguiu, o que classificou de "lamentável".
No seu entender, deveriam "rever a situação" porque "não é aceitável querer marcar-se uma consulta e só para daqui ou quatro meses", se consegue, criticou.
Desgostado com a situação, vincou que "as pessoas merecem mais" e "se é por culpa dos médicos ou do Estado, alguém tem de tomar providências, porque, assim, não!", desabafou.
Faltam dois médicos
Contactada a coordenadora do Centro de Saúde de Caminha (agora designado Unidade de Saúde Familiar de classe A), a Drª Cristina, agora dispondo de um Conselho Técnico composto por um médico, um enfermeiro e um auxiliar, confirmou-nos a falta de dois médicos, equivalendo a que 3.000 utentes não possuam médico de família.
Esta Unidade de Saúde Familiar esteve para entrar em vigor nas vésperas da pandemia, e como o Centro de Saúde de Caminha esteve à frente da criação e organização do Centro Covid de Seixas, foi adiada esta mudança, a qual só foi operada há um ano.
Referiu que os médicos substitutos dos dois clínicos "estão sempre a mudar", o que torna difícil coordenar o trabalho, precisando ainda que a falta de um secretário cria dificuldades no atendimento das chamadas. Contudo, "às vezes atendem", adiantou.
Relevou o esforço exigido a todos os profissionais de saúde deste centro durante a pandemia, adiantando que presentemente chegam a dar horas a mais na tentativa de acorrer a todas as situações, o que é difícil, reconhece.
Obras dependentes de reforço do PRR
Alguma degradação visível no interior do edifício deverá merecer uma intervenção da parte da Câmara Municipal, espera a coordenadora de Centro de Saúde, mas a vereadora Sandra Fernandes, responsável pelo sector da saúde, disse-nos que as instalações pertencem à ULSAMinho. Um protocolo estabelecido com a CIMAlto Minho, estabeleceu que competiria aos municípios fazer os projectos de reabilitação, após terem sido lançadas duas candidaturas aos fundos do PRR por parte do Hospital de Viana do Castelo (ULSAM), prevendo 500.000€ para a unidade de saúde de Caminha e 450.000€ para a de Vila Praia de Âncora. Contudo, apenas aprovaram 235.000€ para cada uma, o que foi considerado insuficiente, tendo sido solicitada uma reunião com o secretário de Estado da Saúde, na tentativa de obter as verbas em falta. Caso o consigam, os fundos servirão para que as câmaras realizem as obras.
Quanto à falta de médicos, Sandra Fernandes revelou-nos que já têm feito chegar aos responsáveis pela ULSAM "a nossa preocupação", estando a aguardar pelos novos médicos para que sejam colocados em Caminha, estando certa de que pelo menos um deles será aqui fixado.