Victorino d'Almeida não esqueceu as suas deambulações pelas freguesias do concelho de Caminha no início deste século, quando foi contratado pelo Município caminhense para realizar uma série de concertos pelas suas aldeias e vilas, ao apresentar a harpista Beatriz Cortesão na igreja de Fontoura, Valença, no passado Sábado.
"Victorino d'Almeida e seus Convidados" foi a designação genérica dada então às digressões do maestro por diversas freguesias do nosso concelho - chegando ainda a actuar em A Guarda-, nas quais apresentava um músico ou cantor, a par de seguir uma política de conceder visibilidade a jovens talentos que se revelariam mais tarde como autênticos mestres nos diferentes instrumentos musicais ou canto, como recordou o maestro na noite de Fontoura, a propósito de um miúdo que actuou em Dem.
Com a sua boa disposição e humor habituais, Victorino d'Almeida (embora sentado), acompanhado de Miguel Leite, aproveitou o espectáculo de Fontoura para comentar a vida e obra de compositores que a harpista Beatriz Cortesão interpretou, tais como Carl Bach (filho de Sebastian Bach), Debussy, Wilhelm Posse (o tema popular "O meu chapéu tem três bicos" veio a saber-se neste concerto - pelo menos para quem desconhecia - é da sua autoria) e Cláudia Mota.
O facto de a harpista Beatriz Cortesão (a frequentar um mestrado em Milão, numa escola ligada ao Scala, teatro onde é primeira harpista) ter incluído no seu programa uma peça de uma compositora, permitiu a Victorino d'Almeida realçar que as mulheres (designadamente as portuguesas) também sobressaíram ao longo dos tempos no campo da música, embora não merecendo o mesmo destaque que os homens, lamentou.
"Lutarei contra extinção da Orquestra Sinfónica da Casa da Música
Victorino d'Almeida cumprirá 83 anos em 2003, mas continua reivindicativo.
Criticou a mania portuguesa de desvalorizar tudo o que é nosso, designadamente sob o argumento de que somos "muito pequeninos", quando, na verdade, se olharmos para a Europa, Portugal fica acima de muitos países em termos de superfície, dando como exemplos a Dinamarca, Bélgica, Países Baixos, Hungria ou Áustria. Contudo, chegado a este país, a grande diferença em termos culturais, por exemplo, é que neste Estado do centro da Europa existem 55 orquestras sinfónicas, em contraste com Portugal, onde apenas há três, e a da Casa da Música, no Porto, segundo se consta, poderá acabar, o que o indignou, uma decisão, que, a confirmar-se, contará com "o meu total repúdio" e prometendo desde logo lutar para que tal não aconteça.
Tal como sucedia nas digressões em Caminha, Victorino d'Almeida permitiu que um miúdo de 12 anos interpretasse duas peças ao piano - um delas, uma composição do próprio maestro com a mesma idade -, o qual agradeceu aquele "momento que nunca mais esquecerei ao longo da minha vida", assegurou o jovem intérpetre valenciano.
Victorino d'Almeida - uma pessoa ligada desde criança a Caminha - em referência a essa peça sua intitulada "Elegia" que compusera aquando da morte de Staline (1953), uma figura que o seduzia quando era jovem - tendo valorizado o seu contributo na luta contra os nazis, mas acabando acima de tudo a dar relevo à resistência do povo russo, pormenorizou -, mas que agora classificou como um "estepor", depois de Victorino d'Almeida ter vindo a esclarecer-se ao longo da sua vida sobre as suas atrocidades.