O processo de agregação à força das freguesias por imposição do ministro Relvas, cumprindo as determinações do seu primeiro ministro Passos Coelho, foi criticado no decorrer de uma debate promovido pela Junta de Freguesia de Caminha/Vilarelho para definir a posição da autarquia quanto a uma tentativa do actual Governo para repor justiça neste processo cumprido à época "a régua e esquadro", mas a nova legislação aprovada a 24/6/21 não conseguiu cumprir esse objectivo, pois deixou de fora a possibilidade de as freguesias com menos de 750 eleitores poderem decidir do seu futuro.
O presidente do Executivo local de Caminha e Vilarelho, acentuou que de modo a que Vilarelho não perdesse a sua identidade e unidade, a tomada de posse do seu Executivo e da respectiva Assembleia de Freguesia (na altura com sete delegados socialistas e dois do PSD) decorreu precisamente no edifício da junta de freguesia de Vilarelho, dando dessa forma um sinal inequívoco da igualdade de tratamento que iria imprimir à sua orientação política em prol das duas freguesias.
Miguel Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia há três mandatos, historiou este processo iniciado de forma arbitrária e tumultuosa pela governação social-democrata (o concelho de Caminha foi um dos muitos onde a controvérsia imperou), referindo que tanto Caminha como Vilarelho cumpriam agora os requisitos para se poderem desagregar, por possuírem ambas mais de 750 eleitores, além de existirem equipamentos colectivos em número suficiente em cada uma delas, e outros considerandos históricos a ter em conta.
Auscultadas forças políticas
O autarca socialista esclareceu os presentes que compareceram nesta reunião realizada na sede da Junta de Vilarelho, dos passos encetados pela autarquia junto das forças políticas concorrentes ao órgão autárquico em Setembro do ano passado, aquilatando da sua opinião.
Todos foram unânimes em afirmar que seria mais vantajoso manter este status quo.
Acrescentou que a Assembleia de Freguesia tinha poderes para deliberar, devendo posteriormente ser levada a decisão à apreciação da Assembleia Municipal e após obter a sua aprovação, a decisão seria comunicada ao Governo para promulgação, caso houvesse mudança da actual situação.
Contudo, esta autarquia caminhense e vilarelhense optou por auscultar os moradores e forças partidárias, além de ter contactado informalmente muitas pessoas sobre a decisão a tomar.
Miguel Gonçalves recordou ainda que chegou a defender o referendo, o qual, no entanto, na sua óptica, só teria sentido de houvesse uma "grande divisão" sobre esta matéria, o que não era o caso, constatou, o que não iria, portanto, "mobilizar os eleitores".
Defendendo a agregação actual, este autarca precisou que ambas as freguesias "perderiam recursos" se viessem a separar-se. Se as duas juntas se tornaram na segunda freguesia mais populosa do concelho, com a separação, Caminha situar-se-ia na 4ª posição e Vilarelho na 6ª, equivalendo a receberem menos dinheiro do Estado e perderiam os quatro funcionários que possuem actualmente.
Assinalou ainda que os anteriores presidentes de junta de Vilarelho consultados sobre este processo, se tinham pronunciado pela manutenção da fusão das duas freguesias, cuja convivência se mantém intacta, assim como a gestão actual, dando como exemplo a passagem da administração do cemitério municipal (Caminha) para a Junta de Caminha/Vilarelho.
"Perderíamos escala"
Este tema suscitou alguns comentários, como foi o caso de Luís Pedro Saraiva, nascido em Vilarelho, afirmando que sempre defendeu as agregações (mas não da forma como elas se processaram em todo o país), e também dos municípios, os quais não deveriam ter menos de 50.000 eleitores, no seu entender. Referiu que a Troika pretendia agregar os municípios - ao constatar que havia tantas (freguesias) e crendo que estes órgãos autárquicos eram câmaras municipais, conforme se soube mais tarde, convém recordar.
Vincou que com a desagregação, Caminha e Vilarelho perderiam "escala e representatividade", acentuando seguidamente que Vilarelho sempre foi um dormitório de Caminha, mas, no passado, tinha sido a primeira paróquia e servindo quatro freguesias.
Caminha perde população e Vilarelho aumenta
Actualmente, de acordo com os censos realizados no ano passado, apesar das dificuldades em interpretar o número de moradores/eleitores em cada uma, por estarem agregadas, tudo aponta para que Vilarelho possua mais moradores do que Caminha, uma vila que vem perdendo população a uma média de 100 pessoa em cada 10 anos referiu, Rodrigo Meireles, outros dos intervenientes neste debate, depois de recordar que há 200 anos, havia cerca de 800 municípios em Portugal, contra os 308 actuais.
Abordando o percurso histórico das duas povoações ao longo da história, Rodrigo Meirelers acentuou que "Caminha nasceu do Coto da Pena", em Vilarelho, até que as pessoas se foram fixando na ilha (Caminha) e se expandiram pelos arredores.
"Mesmo assim (com as duas freguesias unidas), somos menos de metade de Vila Praia de Âncora", recordou, o que motivou Rodrigo Meireles a advogar pela manutenção "desta unidade e proximidade", alertou, após o que considerou que a famigerada Lei Relvas "foi muito mal feita", por não obedecer a critérios, concluiu.
Junta soube manter unidade e identidade de cada uma
Apesar de na altura não ter gostado da forma como "o processo foi conduzido" pelo Governo laranja , assinalou Pedro Vila Pouca, a Junta de Freguesia conseguiu tornear as lacunas e erros da Lei Relvas ("Ervas", como era conhecida em Azevedo, uma aldeia que perdeu completamente a sua identidade), permitindo manter uma união que de facto sempre existiu entre Vilarelho e Caminha.
Só a ponte era fronteira
A propósito, outro dos presentes, João Fernandes Ferreira, recordou que nunca se soube - nem houve interesse, nem necessidade - onde ficava a fronteira entre ambas, dizendo-se apenas que a única existente era a ponte sobre a linha do caminho de ferro.
OCP concordou com manutenção
Instada a pronunciar-se pelo presidente da Junta sobre este tema, a cabeça de lista da OCP nas últimas Autárquicas, Sara Nascimento, manteve a posição de concordância da manutenção da agregação, porque separadas, tudo seria mais caro e complicado, admitiu.