O auditório do Centro Cultural de Vila Praia de Âncora albergou há uma semana um trabalho articulado entre o Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha, através da Escola Básica e Secundária do Vale do Âncora, a AMFF, a Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora e a Câmara Municipal de Caminha, incluindo uma exposição a cargo da Junta de Freguesia com objectos utilizados pelos pescadores de Vila Praia de Âncora e de outras freguesias do concelho de Caminha (740 no total), dos quais sobressaía um dóri, uma pequena embarcação com a qual os homens do mar pescavam à linha o bacalhau nos bancos da Terra Nova (Canadá) a partir dos anos 40, após o que transportavam o peixe para o barco-mãe.
Celestino Ribeiro, professor na EBS de Vila Praia de Âncora, apontou esta iniciativa de divulgação de um livro intitulado "O mistério das valsas portuguesas", da autoria do luso-descendente Richard Simas, como uma integração no currículo escolar dentro de uma "cidadania activa".
Mas o que são estas "valsas portuguesas?", interrogou-se o próprio professor perante alunos entre o 7º e o 10º ano, "envolvendo no projecto, pelo menos, uma turma de cada um".
Trata-se, explicou, da música que ficou na Terra Nova introduzida pelos pescadores portugueses, daí a participação da AMFF com um coro e dois estudantes instrumentistas (violino e acordeão) que interpretaram cada um, uma peça desse cancioneiro, cuja memória foi preservada por Richard Simas que se deslocou a Portugal para participar em iniciativas semelhantes em diversos pontos da costa de onde partiam os barcos ("frota branca", assim passaram a ser designados) para a pesca do bacalhau.
Actuação final na Praça da República
Este projecto será objecto de estudo ao longo deste ano escolar, assinalou Celestino Ribeiro, incluindo exposições de memórias, teatro, etc., culminando com uma actuação na Praça da República, em que "todos" poderão dançar as valsas portuguesas ao som da Academia de Música Fernandes Fão.
Resumo da saga dos pescadores na pesca do bacalhau
Coube à historiadora local Aurora Rego fazer uma pequena introdução ao tema da pesca do bacalhau, incluindo a criação da comunidade piscatória na antiga Gontinhães a partir de 1825, quando o pescador galego António Verde, de A Guarda, e sua família (numerosa) se radicaram neste ponto da costa.
Citou os barcos construídos em Viana do Castelo que realizaram 10.000 viagens até aos bancos de pesca do Canadá e a importância do porto de St John's na logística, abrigo de tempestades e apoio médico aos pescadores na sua faina penosa e com sérios riscos de vida, pois foram vários os que faleceram, como a autora retratou nos seus livros dedicados a esta profissão, referindo que havia 178 inscritos na década de 40, embora esse número pudesse ser maior, cuja diminuição a partir de finais de 1960 se acentuou com a redução das quotas de pesca.
O papel das mulheres na educação e sustento dos filhos, enquanto os pais estavam ausentes, mereceu referência especial da autora.
Autor iniciou investigação das "valsas" há cinco anos
Richard Simas é músico, poeta, escritor e colaborador em revistas de arte, vive em Montreal e começou a investigar há cinco anos, nos dois países, esta músicas deixadas pelos portugueses, nomeadamente em St. John's, e objecto de adaptações por parte da própria comunidade canadiana local.
O livro de ficção, em versão bi-lingue, recriando estas valsas apelidadas de portuguesas, mereceu um apresentação de capa, uma vez que o autor não trouxe exemplares para venda.
"Sem a certeza de que voltariam"
Esta "aula" foi encerrada pela vereadora da Educação Liliana Ribeiro, agradecendo esta iniciativa do autor em colaboração com o Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha, recebida "com emoção" e levada até junto dos alunos, relevando a "importância" da preparação e ensino das crianças sobre o seu território.
Liliana Ribeiro realçou ainda que "este tipo de trabalho" permite perceber a importância do projecto (A)mar, e entender a vida dos pescadores que estiveram na pesca do bacalhau, "do que lá passaram" e dos receios das famílias que os viam partir "sem a certeza de que voltariam".