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Vilar de Mouros

Iggy Pop mostrou que a veterania rockeira ainda agita multidões e conseguiu a maior enchente dos três dias

Museu do Festival é anseio de muitos

Terminou em apoteose a edição de Vilar de Mouros/22, nomeadamente quando o veterano Iggy Pop (75 anos), numa linguagem anglo-americana vernácula e provocadora (como é apanágio dos estilos punk) para com a assistência que entrou logo em delírio aos primeiros acordes e desafios lançados pelo músico, evidenciou que a qualidade não se mede pelo maior número de decibéis das batidas dos bateristas e pelo esganiçar das guitarras.

Comentando com amigos a apreciação que muito público faz de algumas actuações das bandas deste e de outros festivais, constata-se que existe uma valorização excessiva do ruído dos baixos em detrimento de uma melodia que deveria, no nosso entender, acompanhar as suas músicas.

Damos como exemplo o caso dos Legendary Tigerman - sem que isso implique que esta banda não tenha qualidade, sendo de referir que durante o período de confinamento, chegaram a atuar na zona envolvente do Dolmen da Barrosa, em Vila Praia de Âncora, sendo tomadas todas as medidas de afastamento necessárias entre os assistentes -, mas quando recuperaram um tema de Nancy Sinatra, lançado em 1966, intitulado "These Boots Are Made for Walking", notou-se efervescência na assistência, porque agradou, a despeito de já ter mais de meio século de existência.

O mesmo se pode aplicar aos escoceses Simple Minds, um grupo que marcou duas décadas nos finais do século passado, e que atraiu também muitos festivaleiros que não deram por mal empregue a compra do bilhete e o tempo que desfrutaram nessa noite, pese embora a voz do vocalista não seja a mesma…e a perna ("my leg") já interfira na sua movimentação em palco (o maior de sempre em Vilar de Mouros, registe-se).

20.000 espectadores

Segundo os organizadores, cerca de 20.000 pessoas concentraram-se no Sábado (último dia) no largo Dr. António Barge (um nome que nunca é por demais recordar), evidenciando que Vilar de Mouros se encontra bem vivo, para o que contribuíram a premência de conviver, desfrutar, ouvir os ídolos, e o bom tempo que sempre contribui para que os indecisos se decidam a marcar presença…. e as saudades do Festival após estes dois anos em que os corações dos jovens e veteranos rockeiros deixaram de latir ao vivo em uníssono.

A transversalidade de gerações é uma característica do decano dos festivais portugueses que começaram a pulular após o primeiro passo (arrojado) dado aqui, em Vilar de Mouros, em 1971. Assim se mantenha no futuro.

"É uma paixão enorme por Vilar de Mouros e o seu Festival"

Fernando Zamith, autor do único livro sobre a história do Festival lançado há já uns anos, intitulado "Vilar de Mouros-35 Anos de Festivais", é presença infalível em cada edição de um evento que "comecei a participar há 40 anos (data assinalada através da colocação de trípticos no Largo do Casal…onde tudo começou) e com muito gosto", confirmou ao C@2000 num espaço emblemático desta aldeia famosa em todo o mundo, onde Elton John, Manfred Mann e 1111 o celebrizaram, durante um dos intervalos das actuações dos conjuntos.

Edição de 1982 "foi um dos momentos mais marcantes da minha vida"

Acentuou que o Festival de 1982 "foi um dos momentos mais marcantes da minha vida" com os seus nove dias de duração, "aqui, neste sítio, onde estamos neste momento no campo do Casal". Vincou ainda que tinha sido "uma experiência de vida fantástica, aos 18 anos - uma idade óptima para ter uma experiência destas -, e como passava férias todos os anos em Vilar de Mouros, já conhecia bem isto", ao que adicionou o "meu gosto enorme por música moderna que o Festival trouxe", tendo-lhe sido criado "o melhor ambiente que se podia imaginar", explicou com orgulho pelos momentos que desfrutou durante esses dias.

Comparando-os com os tempos de hoje, disse ser impossível estabelecer uma relação, começando desde logo pelo facto de agora serem apenas três dias e não nove. Em segundo lugar, apesar da diversidade do cartaz actual, este é "claramente de música moderna", algo diferente do de 82, em que pontificava a "diversificação" e o "ecletismo".

"Como se fossem jovens"

Contudo, "aquilo que nós habitualmente chamamos de espírito do Festival, felizmente está cá, regressou", reforçando que "ainda bem que regressou, embora tarde, depois dos seus intervalos e problemas, mas há já bastantes anos que está estável", evidenciando que "está para ficar e para mexer". Adiantou-nos que "estou a gostar imenso de estar a ver aqui gente da minha geração, da anterior e também posterior, como se fossem jovens". Nesse sentido, acentuou que "os festivais não são só para quem tem 16, 18 ou 20 anos", e Vilar de Mouros "consegue ter essa magia, com rock forte e outro mais suave", o que atrai as pessoas "com mais ou menos cabelos brancos".

Tendo já decorrido uma série de edições sobre a publicação do seu livro que ficou pelo ano de 2003, perguntamos-lhe se não pensa já numa nova fornada até aos nossos dias. Reconheceu que "ainda há dois dias me lançaram esse desafio, mas é difícil, não é uma tarefa fácil como não o foi a primeira publicação", mas adiantou que "gostava disso e um dia que tenha disponibilidade", o que não sucede presentemente, "porque a minha vida familiar e profissional não mo permite aventurar-me nisso, é qualquer coisa que eu gostava de fazer".

Museu do Festival essencial para a sua memória

Como prova deste interesse, confessou ao C@2000 que "em todos os festivais, tenho tido o cuidado de recolher muito material", apesar de considerar imprescindível a existência de um Museu do Festival, anotando que na conversa mantida há dois dias com essa pessoa, o assunto tinha estado no centro desse diálogo, garantindo que "eu próprio daria a minha contribuição, cedendo um pequeno espólio que já é razoável, como estive a ver há dias". Deu como exemplo o facto de há bem pouco tempo lhe ter chegado às mãos de uma forma efémera, "precisamente um dossier sobre este Festival de 1982, contendo documentação privilegiada" oriunda da parte da organização, reputando-a de "extremamente relevante". Indicou que "as pessoas mandam-me esses documentos, porque sabem do meu interesse por isto", mas, insistiu, "o que eu gostava era de expor aquilo que for susceptível disso e permitir aos historiadores que se faça um trabalho com base nessa memória".

Dubai - Bragança - Vilar de Mouros

Uma jovem veio de bem longe fazer a sua estreia no Festival de Vilar de Mouros.

Joana Lopes, natural de Bragança, trabalha no Dubai no ramo da hotelaria, depois de ter tirado um curso nesta área em Portugal. De férias no nosso país, veio pela primeira vez a Vilar de Mouros e ao seu Festival, a fim de "fazer a vontade ao meu pai, que é um grande fã de rock e está sempre a zumbar". Estiveram alojados em Esposende em casa de uma amiga e apenas marcaram presença no último dia, "aquele que escolhemos" como o preferido.

Esta admiração pelo rock contribuiu para que a sua família tivesse montado um bar de rock em Bragança, o JP ROCK Café, "no qual damos concertos". Actualmente no estrangeiro, e como estava em Portugal na altura do Vilar de Mouros/22, "fiz-lhe a vontade e aproveitei vir com ele e os amigos".

Admitiu ser "difícil" trabalhar no Dubai, onde existe "uma qualidade de vida luxuosa e cara, mas vale a pena por uma questão de experiência, currículo e tudo o mais".

Trajada ao bom rigor "gótico", admitiu que "este é um bocadinho o meu estilo, e neste caso gosto sempre de me adaptar um pouco ao sítio onde estou, pintando os lábios, pôr alguma coisa no cabelo, ando sempre de óculos e trago aqui o meu símbolo", classificando-o como "um orgulho, a construção de uma casa remodelada por nós, comigo, o meu pai e a minha mãe", transformando-a num pub-rock "com alguns eventos, principalmente ao fim-de-semana, com concertos rock, trazendo bandas do Porto, Espanha e Lisboa".

Ralativamente às bandas em cartaz para Vilar de Mouros, apontou como suas preferidas Iggy Pop e Bauhaus, mas, precisou, "viemos por todas", e no que toca ao ambiente com que se deparou, "acho-o muito bom, a organização parece-me boa e estou ansiosa por ir ali para a frente para me divertir", admitiu, enquanto permanecia sentada com a família numa das mesas dispostas no recinto.

"Vilar de Mouros ressuscita sempre!"

Carlos Alves, presidente da Junta de Freguesia de Vilar de Mouros, era um autarca feliz, ainda o evento ia a meio.

No final, confirmou-nos que "na minha opinião, este foi um dos festivais mais participados e que teve muito êxito, como é opinião geral de todos os participantes", concretizando ter sido "um Festival de afirmação, confirmação de que Vilar de Mouros está forte e para durar ao contrário do que muitos pensavam ou pensariam".

"Nem contrariedades, nem pandemias" derrubam o decano dos festivais portugueses, "e ele cá está de novo", exclamou com orgulho este vilarmourense pertencente à autarquia local que "sempre pugnou para que o Festival regressasse, graças à coragem e ao empenho de dar parecer favorável ao Festival de 96". A par desta decisão acertada, Carlos Alves assinalou "outro marco histórico quando a Junta de Freguesia adquiriu os novos terrenos onde se realizam, os principais concertos", razão da continuação deste evento que ultrapassa fronteiras, caso contrário "não seria possível".

Este autarca vincou que "tínhamos razão e que tinha valido a pena acreditarmos na obra iniciada pelo António Barge (que dá nome ao antigo largo de Chousa, onde decorrem agora os concertos), "um homem visionário" assim o classificou, tal como foi de largo alcance, precisou, "o contributo importantíssimo da Junta de Freguesia para que o Festival tivesse sido relançado e exista nos dias de hoje, sem a qual não era possível".

"A cada edição que passa, mais se justifica a existência de um Museu"

Questionado sobre a importância da criação do Museu do Festival nesta freguesia caminhense, Carlos Alves não hesitou em confirmar ao C@2000 que "não tenho dúvidas nenhumas de que a cada edição que passa, mais se justifica a existência de um Museu e que daria um contributo importante para o conhecimento da sua história às gerações actuais e futuras", chamando a atenção que muitos jovens desconhecem o que se passou em 71 e 82, e nos dos anos 90 e por aí fora". Sem esquecer os primeiros ensaios do Festival de finais dos anos 60.

Assinalou que "nós já lançamos esse desafio ao presidente da Câmara e aguardamos com grande expectativa que esta ideia seja acolhida", relembrando que a Junta de Freguesia está disposta a "disponibilizar um edifício (antiga Casa do Barrocas) para esse efeito".

No final do evento, a empresa co-organizadora do Festival com a Câmara Municipal de Caminha e Junta de Freguesia de Vilar de Mouros, emitiu uma nota de imprensa.


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