Em Julho de 2023, o ArtBeerFest (Festa da Cerveja Artesanal - "uma designação para aquilo que é o ArtBeerFest") assinalará 10 anos em que foi organizada a 1ª edição do evento que tem na cerveja artesanal a sua génese, conseguindo impor o objectivo de alcandorar Caminha ao título de "Meca da Cerveja Artesanal".
Pela mão da empresa caminhense "Otávio & Giestal Ldª", em colaboração estreita com o Município de Caminha, esta Festa que juntou cerca de 25.000 pessoas nas praças Calouste Gulbenkian, Fezas Vital e parte do Terreiro (agora com novas condições pedonais que facilitaram a sua expansão para este espaço da vila), entre os dias 14 e 17 deste mês, bateu os recordes anteriores.
O ArtBeerFest de Caminha foi o primeiro a ser realizado em Portugal, seguindo-se outras localidades em que os organizadores apostaram - com o Porto a tornar-se no maior evento "em escala" nesta aposta cervejeira não comercial.
Otávio Costa é um dos sócios desta empresa com quem realizamos um balanço desta edição em que os participantes demonstraram a necessidade de se exorcizarem de dois anos de confinamento, retomando hábitos praticamente normais, após este período de "resiliência" a que todos foram submetidos, tendo marcado presença 46 mestres cervejeiros, dos quais 21 eram internacionais e 25 portugueses.
"Cerveja Artesanal é o ADN do Festival"
Confirmou-nos que a Festa está reservada à cerveja artesanal, "basicamente sem cervejas industriais ou ligadas a grandes multinacionais que toda a gente está habituada a conhecer", permitindo desta forma que "todos os pequenos ou novos empreendedores que estão a querer vingar nesta área de negócio" possam expor e vender os seus produtos.
No concelho de Caminha, em 2019, "a coisa estava bem", havia dois ou três novos projectos de fabrico de cerveja artesanal "e com força", mas a pandemia limitou esta negócio a um "círculo muito próximo de mercado", existindo apenas a Truka, crendo que poderá surgir brevemente um novo projecto em Vila Praia de Âncora, disse-nos.
Segundo nos revelou Otávio Costa, há 10 anos não havia praticamente produtores de cerveja artesanal (feita à base de produtos naturais, como a água, lúpulo, malte em grão e leveduras) no nosso país, mas em 2019 a situação evoluiu, atingindo em todos os países "uma expressão galopante", dos quais se destacam a Inglaterra, a Dinamarca, Holanda ou França - "o maior case study do momento", assinalou, ao referir que o Paris BeerFest foi convidado, estando presente com uma cervejeira francesa.
"Caminha é a joia da coroa"
Tendo-se tornado o ArtBeerFest de Caminha "a nossa joia da coroa", adiantou que outros festivais se seguiram levados a cabo por esta empresa, tais como o do Porto, Faro, Alandroal (iniciado este ano), Aveiro e, alternadamente, em Lisboa, começando em Março/Abril até Setembro/Outubro. Ainda no Porto, organizam um evento relacionado com a "cerveja espontânea" feita à base de lúpulos selvagens, dirigida a "um nicho mais fechado, os nerds da cerveja", explicou.
"Basicamente, o Festival cresceu"
Os organizadores comungam da ideia de que na edição deste ano foram atingidos números bem superiores aos das anteriores, dando como exemplo o primeiro dia (Quinta-feira), o qual costumava ser mais frequentado por visitantes locais, mas "só nesse dia" registou-se um aumento de 50%, registos superiores que se seguiram nos dias seguintes ("Sexta e Sábado são a enchente normal", completou), apontando ainda como exemplo paradigmático o Domingo, "habitualmente mais popular, com gente aqui da zona, mas que atingiu também um crescimento na ordem dos 50%".
A festa urbana de Caminha
O ArtBeerFest poder ser considerada a festa urbana por excelência da vila de Caminha, uma interpretação comungada por Octávio Costa, sem menosprezar "outros eventos e coisas muito boas" que aqui se realizam, fez questão de salientar - dando como exemplos as festas religiosas "das quais, como caminhense, tenho boas memórias", apontando as da Senhor da Agonia e de Stª Rita de Cássia, que "eu gostaria que um dia voltassem a ter o esplendor de antes" -, a par de outros eventos de muita qualidade em todo o concelho, acentuou.
Além de admitir que o ArtBeerFest seja "o mais urbano", apontou outra característica que reputou de importante, como é o facto de ser "o mais internacional a nível da Europa e já com alguma projecção conseguida em 2019 nos EUA" e integrado no Circuito Internacional de Festivais (daí o fato de ter datas fixas previamente assumidas), ultrapassando a mera festa de rua, em que as pessoas vêm divertir-se, ouvir as bandas e beber cerveja.
Apesar do sucesso desta edição, "o mundo ainda está muito maluco", reconheceu, o que obstou a que outros contactos e participações dos mestres cervejeiros internacionais tivessem sido mais amplos, insistindo no caso dos Estados Unidos, "de onde ainda é muito difícil trazer cervejas e que as pessoas viagem", a par de alguns problemas com a Grã-Bretanha "devido à realidade do Brexit, com impostos e alfândegas".
"Um momento muito importante para Caminha"
A despeito de alguns condicionamentos e receios ainda existentes por efeito da pandemia, Octávio Costa definiu este momento "como muito importante para Caminha", incluindo para o próprio ArtBeerFest "porque recebemos aqui a Europa e o mundo inteiro", incluindo o facto de ser o local "onde todos os que gostam da cerveja artesanal gostam de vir", e por alguma razão lhe chamarem a "Meca Portuguesa".
"Câmara Municipal de Caminha envolve-se completamente"
Mas para além destas constatações, este sócio da "Octávio & Giestal Ldª", realçou a importância que a Câmara Municipal de Caminha, igualmente promotora, concede ao evento, "ao envolver-se completamente" na sua organização, juntamente com os seus funcionários". "Nós somos os organizadores, mas também é a Câmara, porque há muitos detalhes e muita coisa em que o Executivo e os funcionários "capricham, insistiu, incluindo no apoio financeiro que "inevitavelmente é o motor do Festival".
Levantamentos multi-banco aumentaram "exponencialmente 80%"
Fruto desta conjugação, "há ainda outras coisas que nos enchem de alegria, ao ver que os bares, os restaurantes e os hotéis estão completamente esgotados", e uma prova do movimento que isto gere, foi a constatação inédita, de que "em termos de levantamentos de multi-banco" entre Quinta e Segunda-feira, aumentaram 80%. Interpretando esta percentagem, e atendendo a que "hoje-em-dia se paga com cartão em todo o lado", refere que esse dinheiro "não vem apenas para o Festival, mas para toda a gente", dando como exemplo muitas pessoas que alugaram quartos pela primeira vez.
Beneficiar os operadores locais
Acentuou que de modo a beneficiar os operadores locais, tentam sempre que as bandas, artistas e cervejeiros se alojem em Caminha, alguns em Vila Praia de Âncora também, embora o facto de beberem cerveja e no final terem necessidade de se deslocarem de carro, pode causar-lhes problemas. Contudo, nem sempre é possível hospedá-los em Caminha, tendo sido forçados a colocá-los no Inatel em Vila Nova de Cerveira, como sucedeu com a banda portuguesa de origem cabo-verdiana que veio da margem sul de Lisboa e actuou no Terreiro, "porque estava tudo esgotado".
Sobre os locais da Festa, Octávio Costa entende que não existiu uma expansão significativa em relação a 2019, mas antes um aproveitamento da nova configuração do Terreiro para alargar os pontos de comida de rua, porque a sua quantidade foi a mesma.
A "métrica" da organização
De acordo com uma "métrica" que a organização possui, representada pela venda de cada copo - "mas a aquisição de um copo não é obrigatória para estar aqui", observou -, avançam para o dobro de pessoas presentes em relação aos copos adquiridos com os quais os visitantes podem provar as diferentes cervejas artesanais existentes. Assim, entre 22 a 25.000 pessoas marcaram encontro com o Festival deste mês de Julho (o mês de sempre para este evento).
"Para quem faz eventos de massas, as coisas tiveram de parar"
O impacto das restrições neste evento devido à pandemia, foi abordado nesta conversa com este sócio da empresa organizadora, começando por admitir que os cancelamentos e limitações atingiram todos os que "fazem eventos de massas", obrigando-os a parar.
A despeito disso, "houve alguma resiliência e criatividade ao não deixar que a marca arrefecesse", apontando no primeiro ano (2020) para um ArtBeerFest digital, em que as pessoas faziam encomendas a cerca de 20 cervejeiros que aderiram, e "nós fizemos uma ligação em directo no dia (Sábado) em que seria o evento", podendo receber em casa as cervejas.
Resistência aos efeitos da pandemia
Revelou que acabou por ser "interessante, sobretudo para uma comunidade mais próxima da cerveja artesanal, mas não tanto para um público que não está dentro deste âmbito, e, em 2021, "com um bocadinho de esforço, criatividade e perseverança quisemos demonstrar à Câmara Municipal de que seria possível, de acordo com as condições que a DGS impusesse". O evento decorreu no Parque Municipal, onde existia mais espaço mais amplo, mas, reconheceu, "não foi o ArtBeerFest que toda a gente conhece, mas serviu para trazer a Caminha toda a massa crítica cervejeira portuguesa, numa época em que as pessoas não se movimentavam muito", um modelo, "espero eu", aduziu, que "nunca mais o façamos", porque, admitiu, "esse Festival não me disse nada".
Apesar de terem seguido as recomendações das autoridades de saúde, não deixou de destacar as contradições verificadas nessa altura, em que apenas com 400 pessoas em simultâneo no recinto vedado (um hectare) até à meia-noite, após essa hora as pessoas juntavam-se todas nos bares, admitindo, no entanto, que "também foi bom para a actividade" desses estabelecimentos.
"Espaço ideal é no centro histórico"
Após a experiência do ano passado, Octávio Costa assegura que o "espaço ideal" é o do Centro Histórico, porque, justificou, "a nossa ideia de evolução é sempre de qualidade e não ocupar mais espaço", justificando por isso a razão de já estarem a delinear a 10ª edição, em termos de bandas e programação artística, incluindo os workshops sobre cerveja proporcionados aos visitantes do certame no auditório do Museu Municipal , uma actividade que os visitantes não valorizam muito em termos de assiduidade, mas que pretendem manter uma vez que concede uma envolvência muito grande ao profissional.
"2023 deverá ser uma súmula daquilo que fizemos nestes 10 anos", esta será uma pretensão da organização, confirmou-nos, e "trazer todos aqueles que nos ajudaram a divulgar lá fora o ArtBeerFest e toda a qualidade da cerveja portuguesa".
"ArtBeerArt"
Alguns pormenores constantes da edição de 2022 foram-nos explicados por Octávio Costa, como foi o caso dos bonecos amarelos e tracejados a preto colocados nas estruturas de venda das diferentes marcas na Praça Calouste Gulbenkian.
Tratou-se de um conceito introduzido em 2019 e interrompido parcialmente pela pandemia, agora retomado, e que intitularam de "ArtBeerArt", naquilo que definiu como representação de arte urbana no ArtBeerFest e "criando conteúdos de intervenção artística no Festival".
Este ano, os stands foram modificados, surgindo agora como "estruturas de andaime de obra, em que fizemos um recetiling em que os bonecos simbolizaram os trabalhadores das obras com os seus fatos. Grafitters intervieram ainda em três paletes de tijolo de sete, uma forma de agradecerem à empresa local de construção "Costa e Sá", que "desde o primeiro dia tem sido nossa parceira", como que lhes dando "a curadoria da intervenção" que foi feita.
Atlético Clube de Caminha organizou Mikkeler World Run
Recordou ainda, que por coincidência, a 5ª edição da Mikkeler World Run deste ano foi organizada em parceria com o Atlético Clube de Caminha, de modo a "gerar benefícios para o clube", clube este que tem as cores preta e amarela estampadas no seu símbolo e nos equipamentos dos atletas. Referiu o trabalho "incrível" desenvolvido por quem está à frente das camadas jovens e da gestão do ACC, nomeadamente quando foram obrigados a alterar apressadamente o percurso da corrida previsto para o Camarido devido ao estado de contigência decretado pelo Governo perante o perigo os fogos florestais, criando em alternativa um novo itinerário pelo centro urbano da vila. Este circuito esteve integrado no programa de comemorações do 30º Aniversário do Atlético Clube de Caminha, tendo sido orientado pela sua secção de running (corrida), avaliando positivamente a decisão tomada e que pretendem manter no futuro.
Em 2013 temeu-se que estivesse associado a "bebedeira"
Recordou que quando criaram a empresa em 2013, decidiram promover a cerveja artesanal, um projecto apresentado ao Executivo camarário de então, que se interrogou sobre o motivo de promover a cerveja artesanal no concelho, temendo que estivesse relacionado com "bebedeira", ao que que retorquiram que "a cerveja artesanal era uma nova tendência de mercado em expansão incrível em todo o mundo e que ainda não existia em Portugal". Tendo insistido o Executivo sobre a lógica de trazer esse evento para Caminha, responderam-lhe que "Caminha era o único dos 10 concelhos do Alto Minho que não tem vinho, além de ser uma vila cosmopolita e com praias", acabando por ser aceite a proposta que acabaria por resultar.
"Um Festival de boa onda"
Reconhecendo que a cerveja tem álcool, razão da manutenção dos esquemas de segurança, nestes 10 anos "nunca tivemos qualquer altercação". Insistiu que a cerveja artesanal, como tem bastante álcool não poder ser bebida em grandes quantidades devido à fibra que possui, o que a torna grossa, levando a que seja consumida em doses mais moderadas.
1º Festival de Sidras de Ponte de Lima
Dentro deste espírito de promover eventos ligados à produção artesanal, a "Octávio & Giestal Ldª" tem em mãos mais um projecto a lançar em Ponte de Lima no próximo mês de Novembro (29), o 1º Festival de Sidra, um concelho com imensas variedades de maçãs.
"Não estamos para aí virados": Festival de Vilar de Mouros
Perante este conjunto de projectos, questionamos Octávio Cunha se nunca tinham equacionado a hipótese de a médio ou longo prazo poderem vir a assumir a realização do Festival de Vilar de Mouros.
Respondeu-nos que tal nunca tinha estado presente nos seus objectivos, porque esse Festival baseava-se na contratação de grandes bandas internacionais, "um "métier" em que nós não estamos para aí virados", garantiu, embora não deixasse de manifestar a vontade de "ter alguma presença" do ArtBeerFest no recinto.
Contudo, Vilar de Mouros é também patrocinado por uma cervejeira industrial, o que impossibilita outras opções e, reforçou, "como cada macaco está no seu galho", essa hipótese está posta de lado.