Foi com a declamação de um poema da autoria do bombeiro comandante Camilo Guedes Castelo Branco (nascido e falecido na Régua - 1868/1949) intitulado precisamente "O Bombeiro", a cargo de Artur Gigante, que abriu o acto de apresentação do livro comemorativo dos 100 Anos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora que a historiadora ancorense Aurora Botão Rego sintetizou no passado dia 2, no Cineteatro da associação.
"100 Anos a Servir", foi o nome dado pela autora a esta obra que demorou alguns anos a coligir, resultado de inúmeras horas de estudo "incluindo muitos fins de semana e feriados" - como recordou seu filho César Magalhães (pianista e compositor), um dos artistas musicais que preencheu a sessão de apresentação, juntamente com Jorge Nande e Tânia Esteves (vozes) -, baseada essencialmente nas actas que chegaram ("sobreviveram") até aos nossos dias.
"Sete homens valorosos"
"É muito mais do que a história dos bombeiros, é também de Vila Praia de Âncora", assim definiu a autora o seu trabalho em que evidenciou "o bairrismo ancorense", demonstrado logo na fatídica noite de 3 de Novembro de 1916, em que um pavoroso incêndio deflagrado no prédio do Portela, à Praça da República, rapidamente se estendeu a todo o quarteirão, de nada valendo as tentativas da população para o combater com baldes, e quando os bombeiros de Viana do Castelo chegaram, limitaram-se a fazer o rescaldo.
De imediato se constituiu uma comissão ("sete homens valorosos") e que ficariam conhecidos mais tarde como os sete magníficos que se encarregou de realizar uma campanha para a criação de uma corporação de bombeiros, Elaboraram os respectivos estatutos, e a 1 de Janeiro de 1917 era constituída formalmente a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora, embora este trabalho não tivesse sido fácil, admitiu a autora do livro do centenário.
Foram adquiridos desde logo dois carros manuais que foram guardados num armazém onde se encontra agora a farmácia Moderna.
A associação continuou a evoluir, mas por morte de um dos principais impulsionadores em 1931, entrou em crise. Contudo, mercê do empenho de "quatro heróis", os ancorenses foram exortados a reerguer a corporação, tendo sido lançado um concurso junto dos alfaiates locais, para que fossem executados os adereços dos bombeiros, e mercê das relações directas estabelecidas com a Inspecção-Geral de Incêndios, chegou o primeiro carro motorizado (Buick), seguindo-se outra viatura que teve de ser adaptada. Em 1956 foi recebido o primeiro jipe e dois anos depois a primeira ambulância.
Neste deambular pela história da associação, Aurora Rego referiu que quando as viaturas já não cabiam no armazém, foi comprado um terreno onde se construiu o quartel (no actual cineteatro), tendo sido sempre ao longo dos tempos um contributo generoso para as obras e outras aquisições a realização de cortejos de oferendas e mais tarde os Cantares das Janeiras.
Recordou outras funções e apoios que os Bombeiros prestaram à população, dando como exemplo o funcionamento no quartel do primeiro posto de socorros em 1934 com o apoio dos médicos dr.s Araújo, Mesquita e Alfredo Pinto, além de terem nascido aqui outras associações, bem como o apoio concedido à Fundação do Almirante Ramos Pereira, a emissão do programa "Hora da Saudade" que a então Emissora Nacional dirigia aos pescadores da Terra Nova, ou o resgate da Banda Musical Ancorense.
"Bons tempos aqui passamos"
Aurora Rego vincou que o actual Cine-teatro (criado em 1931) desde sempre disse muito aos ancorenses, dando o seu exemplo pessoal pois, frisou, "aqui vi o meu primeiro filme do Joselito", a par dos bailes que se realizavam com recurso a uma plateia móvel.
Recordou ainda que o cinema foi uma excelente fonte de receita para a associação, cuja sala de espectáculos surgiu no seguimento da projecção de um filme "na sala de cima", iniciativa de um grupo de senhoras, a qual "foi um estrondo!", assinalou.
Com os tempos, o cinema entrou em decadência em termos de bilheteira, encerrando as portas em 1980, resultando na sua decadência (degradação), até que foi recuperado pela actual Câmara, (incluindo a campanha 1 Telha=1€ encetada pela Direção presidida por Laurinda Araújo), após várias tentativas falhadas no passado, tendo aproveitado a oportunidade para apelar aos presentes para que venham ao cinema, desde que ele foi recuperado após a reconstrução e reabertura do cine-teatro em 7 de Janeiro de 2017.
"Assinalamos passado, presente e futuro"
O presidente da Câmara Municipal de Caminha, Miguel Alves, ao intervir nesta cerimónia, precisou que o lançamento deste livro "complementa a Festa dos 100 Anos", abordando "os altos e baixos" da associação, através do qual "assinalamos passado, presente e futuro".
O autarca recordou que a recuperação do cineteatro onde decorreu a cerimónia tinha sido uma promessa sua logo que chegou à Câmara Municipal em 2013, tendo em conta o trabalho "pela sua terra" que a associação desenvolveu desde a sua criação, tendo aproveitado para agradecer à actual presidente Laurinda Araújo e sua equipa directiva, bem como ao corpo activo "forte" e orgulhoso do seu desempenho e que brevemente será recompensado com mais uma EIP (Equipa de Intervenção Permanente).
"Dia de festa para os ancorenses"
Insistindo que "do passado se faz futuro", o presidente da Câmara Municipal de Caminha agradeceu a todos, instituições, população e juntas de freguesia que têm apoiado e colaborado com a AHBVVPA, pedindo-lhes que "trabalhem em conjunto em prol da comunidade".
O autarca terminou as suas palavras, citando um discurso proferido pelo Comandante Francisco Presa em 1938 e que tinha tido lugar na futura sede/quartel em construção, como forma de fazer o paralelismo com os dias de hoje, acentuando "a absoluta atualidade do que foi dito há mais de 80 anos atrás": "É, portanto, dia de festa para os ancorenses (...) Eu estou certo que todos os corações ancorenses transbordam de júbilo ao entrarem nesta casa, ao verem que alguma coisa se tem feito de há alguns anos para cá (...) Merecem os mais sinceros aplausos as últimas Direções desta Associação. Aos pessimistas, àqueles que tudo criticam e nada fazem, podemos hoje afirmar que muito mais se fará ainda se uma mais estreita colaboração dos ancorenses de boa vontade se verificar (...)" .
Monumento aos Bombeiros
"É um motivo de festa e celebração da nossa comunidade" em honra dos Bombeiros Voluntários, assinalou Carlos Castro, presidente da Junta de Freguesia, para de seguida se referir ao monumento dedicado aos Bombeiros colocado numa rotunda da Cruz Velha no dia 1 de Janeiro de 2017, data em que a corporação perfez 100 Anos, numa iniciativa da autarquia local.
O autarca aproveitou para destacar "o papel glorioso dos Bombeiros" durante este período pandémico, bem como no apoio aos refugiados ucranianos, após o que agradeceu à autora do livro, pela "homenagem" prestada através da edição desta obra, tendo ainda agradecido a todos quantos participaram neste evento.
"Palavras sentidas"
Laurinda Araújo, presidente da direcção da AHBVVPA, através das suas palavras a abrir esta sessão de apresentação do livro, não esqueceu de relevar que a sua "primeira alegria" foi a inauguração do cine-teatro no 1º centenário, e "agora, este livro", levando-a a agradecer à sua autora.
Divulgou que o livro já se encontrava pronto há três anos, mas a falta de dinheiro para o imprimir provocou o adiamento da edição, o que só agora foi possível graças ao apoio de cinco mil euros concedido pela Câmara Municipal de Caminha e aos mil e quinhentos euros atribuídos pela Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora.
Justificou ainda este hiato pela prioridade dada à aquisição de ambulâncias (uma delas teve um acidente logo após ter sido obtida pela associação, forçando à compra de uma outra) , a par do apoio na intervenção no combate ao Covid.
Laurinda Araújo, com "palavras sentidas", enalteceu "a história riquíssima" iniciada graças ao empenho dos designados "sete magníficos", o nome pelo qual ficaram conhecidos os principais impulsionadores desta associação do Vale do Âncora, e que, precisou, "merece todo o nosso respeito".
Fotografias
No final deste acto que englobou a entrega de livros e diplomas a familiares dos fundadores, comandantes, directores (actuais ou falecidos) e colaboradores, foi oferecido um pequeno lanche aos convidados ou pessoas presentes, na sala de cima (salão), em cujas paredes foram colocadas fotografias dos comandantes, presidentes de direcção e fundadores da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora.