Nestes tempos conturbados e ameaçadores para a soberania dos povos e paz mundial, o C@2000 foi ao encontro de cidadãos ucranianos e russos que residam no nosso concelho, no intuito de nos contarem as suas experiências pessoais e a visão que possuem do conflito em curso na Ucrânia que ameaça destruir este país às mãos (tanques e bombardeamentos, para já) do capitalismo de estado russo controlado com mão de ferro por um ex-agente da KGB e sua "nomenklatura" político-militar e apoiado pelos seus oligarcas.
Alexandre, nasceu numa pequena povoação da Sibéria (Rússia) e reside há 20 anos em Gondar, com sua mulher Sacha, nascida na Turquia.
Ambos são frontalmente contra a esta guerra, como esta artesã fez questão de nos assegurar quando a contactamos, no intuito de podermos conversar com seu marido.
Contudo, explicou-nos que Alexandre não gosta de se mostrar, e muito menos conceder entrevistas, a par de existir algum receio de algum tipo de represálias, razão pela qual nem sequer quis que revelássemos o nome da aldeia de onde é natural.
Fica apenas o registo da sua rejeição total à invasão da Ucrânia.
Iryna Mykolyshyn falou ao C@2000
Em Vila Praia de Âncora, fomos encontrar uma cidadã ucraniana (Iryna Mykolyshyn) , farmacêutica, a trabalhar em Valença, e que nos recebeu na sua casa adquirida há algum tempo, e que em 2000, por decisão do seu marido, igualmente ucraniano, resolveram emigrar para Portugal. Tem um filho que está a terminar um curso de informática em Coimbra e que fala correctamente o português ("e já com o sotaque da nossa região", referiu com orgulho).
Contou-nos a sua vida em Portugal, o quanto apreciam a nossa hospitalidade, a beleza da região minhota, depois de, inicialmente, terem vivido em Rio Maior, desde 2001 até 2007.
Mas 10 meses depois, seu marido resolveu regressar a Lviv (a 80 km da Polónia), onde tinha ficado o filho de ambos, com três anos, na companhia dos avós maternos e da avó paterna, uma permanência que durou sete anos, porque durante esse período de tempo não conseguiram obter os papéis da criança para vir para junto dos pais.
Obstáculo da língua ultrapassado
Depois de instalados em Rio Maior, decidiram ficar em Portugal, e como Irina possuía um curso de farmácia tirado na Ucrânia, seu marido aconselhou-a a conseguir a equivalência em Portugal e quando completasse o curso, "iríamos buscar o nosso filho". Voltaram à Ucrânia a fim de obterem os papeis, e no regresso inscreveu-se na Faculdade de Farmácia de Lisboa, deparando-se de imediato com a dificuldade da língua e de ter de fazer os três últimos anos desse curso (sete cadeiras e sem que houvesse dicionários nas duas línguas).
Aos 30 anos conseguiu superar a dificuldade da língua, deslocando-se todos os dias para Lisboa e acabar o curso (totalmente diferente do que tinha feito no seu país de origem), tendo estudado de dia e de noite, e a primeira cadeira que conseguiu completar foi Farmacologia ao fim de três meses. Os problemas para entender o que os professores diziam foram grandes e ninguém conseguia ajudá-la, porque o inglês, por exemplo, não era estudado na Ucrânia, tendo apenas aprendido algo de espanhol.
"Se me perguntar como é que consegui fazer o exame, não sei. Creio que foi a necessidade que faz com que as pessoas alcancem tudo e ao fim de três meses já conseguia falar português" como a generalidade dos seus colegas, todos bem mais novos do que ela e que a ajudaram imenso, assumindo que "todos foram muito prestáveis". No semestre seguinte conseguiu concluir mais cinco cadeiras e ao fim de três anos tinha obtido a equivalência, mas surgiu novo problema. Tinha de fazer prova de português a fim de ingressar na Ordem dos Farmacéuticos, o que temia que fosse outro contratempo, mas logo que marcada a avaliação pela Ordem dos Farmacêuticos, apresentou-se para ser examinada, recebendo uma felicitação pela forma como tinha aprendido a nossa língua de uma forma tão célere, conseguindo dessa forma inscrever-se na Ordem e poder candidatar-se a trabalhar nesta área, depois de ter exercido diversas funções para sobreviver e pagar as propinas na universidade.
Elogio a diretora de farmácia ancorense
Pesquisou na Net, enviou o seu currículo aos pedidos de farmacêuticas e logo a Farmácia Brito, em Vila Praia de Âncora, "no dia seguinte, foi a primeira a chamar-me através da Drª Paula Brito (já falecida)".
Aproveitou de imediato, "gostei imenso desta região, tão bonita" e tentaram de seguida trazer o filho da Ucrânia, mas a embaixada portuguesa colocava dificuldades burocráticas. Quando voltou de férias no verão à Ucrânia, a Drª Paula Brito disse-lhe para se dirigir de novo à embaixada e se fossem colocadas dificuldades na deslocação de seu filho (já com 10 anos), "eu deveria dizer ao embaixador que a sua patroa queria falar com ele através do telemóvel, o que fiz", contou-nos.
Dado que Irina tinha levado com ela uma carta da farmácia comprovando que o seu posto de trabalho era aí, e a embaixada continuava renitente em emitir o visto para que o filho pudesse regressar com seus pais, ela ligou para a Drª Paula Brito, disse ao embaixador para falar com ela, o que fez, tendo-lhe dito que se não autorizasse o miúdo a acompanhar os pais, iria fazer uma participação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e o assunto iria ser muito badalado em Portugal.
Aí, ele reconsiderou e emitiu a documentação necessária.
Em Vila Praia de Âncora, matricularam o filho na Ancorensis, tendo-se deparado com uma vida totalmente diferente, porque os pais iam trabalhar de manhã e só regressavam à noite. Ao fim de um ano já compreendia e falava muito bem o português (e com pronúncia portuguesa), tendo tirado excelentes notas, e, à noite, a mãe auxiliava-o nas traduções.
"Tristeza profunda"
A situação actual na Ucrânia foi o motivo desta conversa.
Irina Mykolyshyn confessou-nos ter "uma tristeza profunda" pelo que se está a passar no seu país, considerando "uma injustiça muito grande matar o povo sem necessidade, crianças, velhinhos, desfazer as casas por ganância e ego".
"Eu acho que ele (Putin) não deveria existir neste mundo", desabafou, em lágrimas, esta ucraniana que deseja a paz na sua terra.
Revelou ao C@2000 que "falo com russos que também vivem aqui, e não vejo este conflito" entre os dois povos, atribuindo-o unicamente "a uma pessoa que quer dominar todo o mundo", temendo que ele "não vai parar na Ucrânia, ele vai em frente porque quer mostrar que é poderoso". No entanto, "às vezes", sublinhou, "os poderosos são falsos poderosos", e além desta obsessão, "ele é doente da cabeça".
"Eu ouço o que ele diz, e hoje fala de uma maneira e amanhã de outra", transmitindo a sua realidade, "que não é a realidade verdadeira". Lamenta as palavras de Putin, que não se importa com o mundo, "nem com as pessoas do seu país", ao colocar "meninos de 17 e 18 anos" a combater, sem qualquer preparação "nem nunca terem estado na tropa, mas eles têm de ir e segundo notícias que tenho, eles nem sabem para onde vão, nem possuem telemóveis", nem qualquer tipo de comunicações, tendo-lhes dito simplesmente que seriam "dois três, dias e depois voltarão, mas muitos já não voltam, porque eles foram pisar um povo trabalhador".
Recordando a história da Rússia, "eles sempre fizeram guerrinhas e até a guerra contra os alemães, eles ganharam-na graças ao povo ucraniano". Referiu que ainda na guerra do Afeganistão, "eles foram buscar ucranianos".
Mas, prosseguindo na sua análise à situação actual, Irina recordou que "eles foram pisar um povo que os pode proteger", ao apontar os exemplos anteriores.
"Ele pensava que isto iria ser como na Moldávia, Tchetchênia ou Geórgia, em que com "uma ou duas semanas isto estava feito". "Fez um erro de cálculo". "Acho que nós somos como os portugueses, acolhedores, amáveis, ajudam, mas quando tu pisas o ucraniano, é melhor não o fazer".
Explicou que na parte mais ocidental da Ucrânia fala-se mais ucraniano, e na parte oriental é o russo, devido "à política da União Soviética que enviou muitos russos para lá a fim de misturar as pessoas, mas entre eles, sempre se deram bem".
Apontou como exemplo o sua família, tendo uma tia casada com um russo "e sempre se relacionaram bem", tal como sucedia com muitas outras pessoas, reforçou, passando a denunciar a argumentação do líder russo, ao tentar justificar a invasão da Ucrânia para defender os russos, "o que não é verdade", precisou.
"Ele não tem limites"
Deu como exemplo a sua cidade, Lviv, à qual se deslocaram muitos portugueses, "tendo podido comprovar que ali não se fala de nacionalismos", e se alguém pergunta algo em russo, todos respondem nessa língua. "Não há problema", assegura. Putin quer é "dominar todo o mundo".
Teme e acredita que se dominar a Ucrânia, avançará para outros países.
Pedimos-lhe que analisasse o facto de Putin se dirigir ao povo russo, utilizando a palavra camaradas, quando a União Soviética já não existe, respondendo-nos que "para ele, nunca acabou". "Eles vivem do passado" e fazem com que as pessoas acreditem nisso com uma política de pretensa "igualdade", porque "isso lhe dá jeito".
Adiantou que as únicas cidades onde se vive bem na Rússia são Moscovo e S. Petersburgo e a cinco quilómetros destas metrópoles, "já nem estradas têm", e os que têm dinheiro "fogem do país".
"Frio e muito cínico"
Esta ucraniana não acredita que esta situação termine tão cedo, porque "é difícil de lidar com ele e quer que todo o mundo gire à sua volta". Além de ser "frio, é muito cínico e nem sei se ele é tão inteligente como ele pensa. Só sabe é fazer negócio para ele e para os que estão à sua volta".
Dá relevo à forte união existente entre os ucranianos, expressa no regresso de muitos homens ao seu país e que se encontravam emigrados a fim de combater a invasão russa, dando como exemplo a despedida que um seu conterrâneo lhe foi fazer à farmácia onde trabalha, chorando muito, mas dizendo que "não conseguia estar bem cá" e com o seu povo a ser atacado. "Não sei se me voltarás a ver, mas agradeço-te o apoio que sempre me deste quando vinha à farmácia", disse-lhe.
Tem fé que dentro de dois, três meses, a Ucrânia esteja mais aliviada, contudo, assinalou que isso só terminará "quando Putin for eliminado do mapa".
Algumas expectativas de que o povo russo se possa revelar contra o poder actual do Kremlin, não são acolhidas favoravelmente por esta emigrante ucraniana, porque, justificou, se há muitos que não concordam com a sua política, outros ainda o enaltecem e "acreditam nela". Disse, no entanto, que a política interna da Rússia é com eles, mas existem já muitos oligarcas poderosos descontentes com a situação actual, mas teme que isso ainda demore muito tempo.
Pais preferem morrer na sua terra, a fugir
Entretanto, "destroem cidades, famílias, trabalhos e isso dói muito".
Logo pelas seis horas da manhã, começa a falar com a sua família, incluindo seus pais com 80 anos que vivem num quinto andar e têm dificuldades em descer e aceder ao seu apartamento, "todos os dias", mas que querem continuar na sua terra, preferindo morrer nela, a fugir, como Irina lhes propôs.
Contacta com colegas de curso e amigos, "mas muitas vezes não consigo falar com todos eles".
O marido da madrinha de seu filho é médico militar e tem de ir auxiliar os combatentes feridos, vivendo situações dramáticas que a fazem chorar, contou-nos Irina que teme pelo futuro das suas famílias que permanecem na Ucrânia.
Mulheres lançam cocktails molotov contra tanques
Realçou as imagens que recebe através do Facebook, vendo mulheres, inclusivamente, ir até junto dos tanques russos lançar cocktails molotov, e insiste que a Rússia não estava preparada para esta forte resistência, "porque ele, Putin, não conhece os seus vizinhos".
Pronunciando-se sobre uma eventual utilização de armamento nuclear por parte de Putin, não pôde ter uma opinião formada, atendendo a que "não sei o que se passa na sua cabeça, porque ele é um doente", tal como o seu ministro da defesa, mas não devem esquecer que "não jogam apenas com a Ucrânia, jogam com todo o mundo".
Armamento, medicamentos (insulina e oxigénio) serão as principais necessidades dos ucranianos, e quanto a comida, não consegue ter uma noção exacta da situação, embora desse o exemplo do dono de uma loja de abastecimento que a abriu para que as pessoas pudessem abastecer-se, embora pedindo-lhes que o fizessem em pequenas quantidades para fazer chegar os géneros alimentares ao maior número possível de pessoas.
Irina recordou as guerras que o seu país tem vivido, e disse que nos primeiros três dias, os demais países "não fizeram nada", na convicção de que a Ucrânia deveria ser entregue à Rússia, mas, "quando viram a resistência do povo, tiveram que actuar".
Deu como exemplos os países bálticos, pertencentes à OTAN, separados da Rússia, pelo que considera essa questão da aliança da Ucrânia como falsa.
"Ele só atacou a Ucrânia porque não gosta dela"
Residente em Portugal, tem feito o possível por recolher material para o enviar para o seu país através de transportadoras, acreditando que todos os donativos vão mesmo chegar lá, "porque ninguém tem coragem para se apoderar deles". Assevera ainda que se encontra disposta a acolher em sua casa refugiados ucranianos, sabendo-se que de momento, está previsto que duas mulheres e quatro crianças possam vir para o concelho de Caminha.
Deu o exemplo de uma criança perdida, sem que os soldados ucranianos pudessem acudir-lhe, porque eram chamados a combater as forças invasoras, e tal, como muitas outras, necessitam de abrigos, que na sua opinião, ao chegarem à Ucrânia devem ser entregues às instituições certas, apontando para o efeito os hospitais.
Anotou que a Ucrânia, no seio da antiga União Soviética, é a região com maior número de arsenal nuclear, nomeadamente através das suas centrais, mas mesmo assim, "não tivemos medo", apesar de já terem bombardeado uma delas, "o que me deixou sem dormir nessa noite", confessou, após ter começado a receber mensagens de ansiedade de lá.
Guerra na Ucrânia já remonta a 2014
Frisou que a guerra na Ucrânia já remonta a 2014, após Putin ter entrado na Crimeia.
Comentando a actuação do presidente Zelensky, declarou-nos que ela até nem era fã dele, temendo desde logo pelo seu país, por não ser político, nem saber falar, só falava russo, fazia algumas reuniões com Putin", mas isto não quer dizer nada porque todos aprendemos", embora o seu preferido fosse Poroshenko, tendo deixado que as pessoas viajassem pela Europa e não apenas pelos países da antiga US.
"Vou cair, onde o povo cai"
Com o tempo, constatou que ele não era assim tão mau como temia. Aprendeu ucraniano e fala-o correctamente e elogiou a sua postura ao dizer que "vou cair, onde o povo cai".
Está ciente de que Putin pretende apanhar Zelensky, um presidente "muito rico", deu conta, e que poderia ir para qualquer país mas preferiu ficar na Ucrânia "porque gosta da Ucrânia".
Embora ele esteja disposto a dialogar com Putin e com todos os países, Irina não credita que este se disponibilize a encetar negociações, preferindo destruir a Ucrânia.
Disse-nos que a população da parte oeste e do centro do país é muito religiosa, embora na parte de leste nem tanto, devido à ligação com a Rússia.
Pedindo-lhe finalmente uma apreciação ao comportamento dos partidos políticos neste conflito bélico, nomeadamente o PCP, na sua óptica, existe "um medo" de Putin para a posição algo ambígua desta formação política, porque teme que ele possa carregar num botão e desencadear uma guerra nuclear, embora reconheça que "a política do comunismo é a mesma".
Este receio existe igualmente em muitos outros países, mas exorta-os a perdê-lo, bem como aos seus políticos.
Elogiou a receptividade dos ancorenses para com a sua família e conta com a solidariedade de todos os caminhenses logo que solicitados a colaborar, como já vem sucedendo.