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"A gripe espanhola era um vírus muito mais perigoso, mas viajava de barco
— demorou muito mais tempo a transmitir-se.
Agora um vírus viaja mais depressa, está em todo o lado.
Dito isto, é importante as pessoas não entrarem em pânico: este é um vírus relativamente bonzinho."

Maria Manuel Mota
Diretora do Instituto de Medicina Molecular
Expresso, 18-04-2020

As pandemias vão-se embora, mas voltam sempre

Na segunda quinzena de novembro de 1918, cerca de dois meses depois da gripe espanhola ter iniciado a sua safra mortal no concelho de Caminha, o tom das notícias já era de balanço, o mesmo sucedendo com as comunicações do administrador para o governo civil, mas os números deixavam transparecer o saldo da verdadeira tragédia que atingira as diversas freguesias: "...o número de órfãos de pai e mãe que ficaram neste concelho é de 15, sendo 2 de Maria das Dores Gonçalves, de Seixas; 3 de Maria Rosa Alves, de Gontinhães; 2 de Maria Rosa Fernandes de Carvalho, de Venade; 3 de Berta Trovisqueira, 2 de Maria Rosa de Castro, 1 de Libânia de Matos e 2 de Ana de Amorim Guerreiro, todos desta vila [Caminha], sendo os dois órfãos desta última somente de mãe, encontrando-se o pai das mesmas ausente no estrangeiro em parte incerta, considerando-se abandonados. Todos estes órfãos não possuem recursos de espécie alguma." (AdC, 13-11).

Nos primeiros dias de dezembro reabrem as escolas, o último dos 70 pacientes ali internados ao longo da crise é admitido no Hospital da Misericórdia, e a epidemia é dada praticamente por debelada, apesar de um ou outro doente que permanecia: "Lanhelas — A epidemia de gripe bronco-pneumónica, que aqui roubou vidas preciosas, está quase extinta, senão extinta de todo..."; "Vilar de Mouros — Esteve aqui na quinta-feira o sr. António Terra, nosso bom amigo de Seixas, conduzindo em automóvel o sr. dr. Damião José Lourenço Júnior, de visita médica aos epidemiados desta freguesia"; "Praia de Âncora — Tem decrescido a epidemia de gripe. O número de casos fatais é insignificante... Regressou de Lisboa o sr. dr. Ramos Pereira"; "Âncora — É com a máxima satisfação que temos a registar o desaparecimento da gripe pneumónica desta localidade, onde só fez seis vítimas..." (Correio do Minho, 6-12).

De setembro a dezembro, números estimados, terão falecido no concelho de Caminha perto de duas centenas e meia de pessoas, registando-se o mesmo padrão de mortalidade do todo nacional, crianças até aos 9 anos e, sobretudo, adultos entre os 20 e os 40 anos de idade, mais mulheres. Apesar de ter a mais alta taxa de género, com 66% de óbitos femininos, o distrito de Viana do Castelo, com cerca de 4300 vítimas mortais, foi dos menos atingidos do país — a exceção foi o concelho de Melgaço, com uma taxa de mortalidade de 2,2% para 0,66% do distrito. Denunciando o fracasso geral no combate à epidemia e o nosso grau de pobreza e atraso, Portugal, com 120.000 vítimas mortais, registou uma das maiores taxas de mortalidade da Europa, bem superior à da nossa vizinha Espanha, com uma população 3,5 vezes maior à época, que teve 270.000 mortos.

Pouco mais de um século decorrido, apesar de ser ainda muito prematuro fazer um balanço final dos efeitos da pandemia covid-19, as diferenças estão bem à vista. Da comparação ibérica, e até mundial, quem sai agora favorecido é Portugal; o número de vítimas mortais no nosso país (cerca de mil no dia em que escrevemos) será sempre felizmente incomparável com o de 1918; no concelho de Caminha, onde até à data não se conhecem fatalidades, em caso algum ficaremos sequer perto dos 250 mortos de há cem anos.

Não haja ilusões, até à descoberta de uma vacina pode haver novas ondas desta epidemia — em 1918, a que temos vindo a referir, a mais mortal, foi a segunda e ainda sobreveio uma terceira na primavera de 1919 e uma quarta em 1920 — e outras pandemias virão no futuro (há quem defenda que as mais graves despontam com uma diferença de meio século), mas se investirmos no Serviço Nacional de Saúde, se apostarmos na investigação científica, se financiarmos adequadamente os sistemas de proteção social, estaremos ainda melhor preparados para as receber.

NOTA 1 — Números e dados retirados de ABREU, Laurinda & SERRÃO, José Vicente (2018). Revisitar a pneumónica de 1918-1919: introdução. Ler História, 73, 2018, pp. 9-19; ECHEVERRI DÁVILA, Beatriz (2018). En el centenario de la gripe española: un estado de la cuestión. Revista de Demografía Histórica, ISSN 1696-702X, XXXVI, I, 2018, pp. 17-42; FRADA, João (2005). A Gripe Pneumónica em Portugal Continental. Lisboa: Sete Caminhos — Produções Editoriais; REBELO-DE-ANDRADE, Helena & FELISMINO, David (2018). A pandemia de gripe de 1918-1919: um desafio à ciência médica no princípio do século XX. Ler História, 73, 2018, pp. 67-92; REGO, Aurora Botão (2015). Quando a pneumónica se abateu sobre a população do concelho de Caminha: uma aproximação do seu impacto. Revista CEM, 2015. Porto: CITCEM/UP, pp. 330-368; SOBRAL, José Manuel & LIMA, Maria Luísa (2018). A epidemia da pneumónica em Portugal no seu tempo histórico. Ler História, 73, 2018, pp. 45-66. Imagem, da pneumónica em Espanha, retirada de CARMONA, José (2020). La gripe española, la pandemia que casi mata al rey de España. Público. 05/04/2020 [https://www.publico.es/culturas/covid-19-gripe-espanola-gripe-1918-pandemia-mata-rey-espana.html].

NOTA 2 — Com este apontamento, publicado quando termina em Portugal o estado de emergência e entramos num período de gradual desconfinamento, concluímos uma série de sete Crónicas da Pandemia, realizadas em grande parte com material retirado do capítulo XIV do nosso livro de 2019 República em Tumulto. O concelho de Caminha nos anos da Grande Guerra, de Sidónio à Monarquia do Norte e da Pneumónica (1914-1919). Caminha: Jornal Digital Caminh@2000.

Paulo Torres Bento



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Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
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Da Monarquia à República no Concelho de Caminha
Crónica Política (1906 - 1913)

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O Estado Novo e outros sonetos políticos satíricos do poeta caminhense Júlio Baptista (1882 - 1961)

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Rota dos Lagares de Azeite do Rio Âncora

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Memórias da Serra d'Arga
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