A "gripe espanhola" de 1918 parecia socialmente transversal na escolha das suas vítimas, atingindo ricos e pobres, mas os mais desfavorecidos, sobretudo os que não tinham terra, eram mais duramente atingidos pelas menores defesas que ofereciam organismos debilitados pela insuficiente alimentação, agravada em tempos de guerra, e pouca salubridade das habitações. Daí que nem o controlo da informação evitava apelos dramáticos, como um provindo da Praia de Âncora pela pena do correspondente local da Aurora do Lima, publicado a 22 de outubro:
"Praia de Âncora, 16 - "Ainda a epidemia - Miséria e abandono - Providências! - A epidemia continua na sua faina destruidora e, posto que não se tenha registado grande número de casos fatais, não é sem dor e grande dor, que todos lamentam a miséria extrema a que é arrastada a pobre classe piscatória desta praia, que vê invadidos os seus humildes casebres pelo contagioso morbus, roubando-lhe os últimos ceitis que à custa de tantos sacrifícios a sua mão arrecadara para durante a época invernosa matar a fome a seus filhos! Afirmam-nos que algumas crianças estão já morrendo de fome. Que será durante o Inverno que se aproxima? Como poderá, agora mesmo, essa pobre gente agasalhar, medicar, sofrivelmente sustentar os seus doentes? (...) Uma séria distribuição de géneros e agasalhos será o meio mais prático e eficaz de minorar tanta dor, de acudir a tanta miséria, de pôr um dique à terrível enfermidade que vai, dia a dia, ceifando desrazoavelmente vidas e mais vidas."
Apesar da desorientação geral, a realidade social da epidemia era percecionada por todos, mesmo pelas autoridades, como o governador civil vianense Aires de Abreu, que durante o mês de outubro percorreu de automóvel o distrito, primeiro o concelho de Viana do Castelo - "pelo ilustre magistrado superior do distrito tem sido feita larga distribuição de galinhas, ovos, carne e medicamentos aos doentes pobres, não só da cidade como das aldeias. A mesma autoridade tem pessoalmente visitado algumas aldeias, informando-se do estado dos enfermos" (AL, 15-10) -, e depois outros territórios: "Seguiu ontem para Caminha e Valença, devendo percorrer todos os mais concelhos do distrito, aquele activo e esclarecido magistrado. S. Exa. foi em viagem para ver de perto os estragos causados pela epidemia reinante e providenciar até onde for possível para melhoria dos pobres atacados por ela" (AL, 22-10).
O assistencialismo, incentivado pelo governo, levava a Câmara de Caminha a promover a formação de uma comissão local de socorros, com delegados em cada freguesia, cuja composição era inteiramente sidonista ou monárquica, de acordo com a situação política desse outono de 1918: "Por iniciativa da Câmara, organizou-se uma comissão para promover, em benefício dos doentes pobres, uma subscrição e uma Kermesse, com cujo produto se lhes distribuirão roupas e alimentos... A Comissão é composta pelos srs. Bento Coelho da Rocha; João Baptista Felgueiras da Silva; Óscar Maciel Malheiro; Francisco de Assis Melo da Gama; João Maria Cerqueira de Azevedo" - "Para organizar o grupo de vendeuses para a Kermesse, foram convidadas as exmªs. senhoras D. Rita Cardoso da Silva Pais, D. Adelina Fezas Vital e D. Sara de Brito Brandão..." - "Além do subsídio já recebido (500$00), o sr. Presidente da República [Sidónio Pais] mandou entregar à Misericórdia mais 1000$00..." (Correio do Minho, 31-10).
Do lado oposto do espetro partidário, a caridade praticada pelos mais abonados, no caso um notório prócere local do Partido Democrático, se mitigaria a miséria de uns poucos, não era bem encarada por todos: "Aqui deixamos exarado o nosso voto de homenagem ao sr. João Baptista Rodrigues da Silva, pelos incansáveis esforços e carinho com que vem tratando diversos pobres e doentes desta freguesia [Moledo], distribuindo avultadas esmolas a uns, administrando medicamentos a outros... apesar da barreira que meia-dúzia de pouco escrupulosos e mordidos pela inveja do seu generoso proceder, tentam opor à sua obra benfazeja..." (CM, 31-10).
Também a Igreja, ou melhor, alguns dos seus mais esclarecidos membros, procuravam obviar à miséria dos conterrâneos, como sucedeu em Vilar de Mouros: "...mão benéfica do exm.º sr. Reitor desta terra, que a par dos socorros espirituais, tão proficientemente se tem prestado, e não só agora, como sempre, a socorrer também fisicamente com medicamentos a classe pobre e aqueles a quem de pronto não chega o médico..." (CM, 14-11-1918) - tratava-se do padre João Luís Afonso da Mouteira, que posteriormente ficaria doente, possivelmente em virtude da sua exposição (CM, 29-11).
Enfim, em 1918 ou 2020, as epidemias nunca são apenas um problema de saúde e depressa se tornam num grave drama social. Se há cem anos a desigualdade começava logo no tratamento médico, ou falta dele, felizmente que no Portugal democrático de hoje o Serviço Nacional de Saúde não o permite. Mas, passada a pandemia, os sistemas públicos de proteção social, apesar de existirem, já não têm o mesmo efeito nivelador quando se trata do emprego, da habitação, da alimentação. Então, apesar do 25 de Abril, a diferenciação social vem ao de cima.