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Os médicos da pneumónica de 1918:
Damião Lourenço Júnior

Por finais de outubro de 1918, mais de um mês passado após ter causado as primeiras vítimas, a pneumónica continuava a atacar forte por todo o concelho de Caminha, como dava nota o jornal local Correio do Minho: "A gripe pneumónica continua a alastrar assustadoramente" — "Lanhelas... estão para cima de 150 pessoas doentes, de cama. Felizmente, até hoje, ainda só temos um único caso fatal a registar..." — "No sábado passado faleceu o considerado proprietário e comerciante desta vila [Caminha] sr. Ricardo Alves de Almeida, aos estragos da bronco-pneumónica" — "... a epidemia intensificou-se bastante no concelho, especialmente em Caminha e Seixas, tendo-se dado bastantes óbitos. Nota-se sobretudo uma grande falta de médicos, tendo já a Misericórdia solicitado ao sr. Presidente da República a vinda ara aqui, do ilustre clínico sr. dr. Damião Lourenço Júnior..." (CM, 31-10).

Damião José Lourenço Júnior (n.1876, Caminha) diplomara-se em 1904 pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto e pouco depois abrira consultórios em Caminha e Seixas, mas a prática da medicina depressa passaria para segundo plano substituída pela política. Derradeiro autarca caminhense do regime monárquico, declarou a sua adesão à República em Outubro de 1910, tornando-se de facto no primeiro presidente republicano do município depois de um breve intervalo de um mês. Durante a 1ª República, enquanto líder de uma das fações concelhias do Partido Democrático — em permanente rivalidade com a fação de Luís Inocêncio Ramos Pereira —, assumiu por diversas vezes a presidência da Câmara de Caminha até 1920, foi Deputado (1913-1915) e ainda Governador Civil de Viana do Castelo (1915-1917).

Desde o dia 21 de outubro que, em sucessivos telegramas, o provedor da Misericórdia caminhense, Manuel Alves Pinto, solicitava a Sidónio Pais, Presidente da República, a vinda de Damião Lourenço, que estava então destacado em Amarante como capitão miliciano graduado. Na realidade, o médico democrático estivera doente e retido em Viana do Castelo durante toda a segunda quinzena de outubro e só a 1 de novembro, recebida finalmente a ordem de mobilização do governo, se apresentou em Caminha: "Dr. Damião Lourenço — enfim, chegou. Apesar de certas más vontades, que largamente se manifestaram, a promessa do sr. Presidente da República cumpriu-se e os de Caminha têm já entre si aquele médico superiormente activo e superiormente inteligente de que necessitavam..." (CM, 7-11). Curiosamente, logo na primeira noite em que começou a prestar serviços, a carruagem de aluguer em que regressava de Seixas foi vítima do mau estado da velha ponte de madeira sobre o Coura e Damião salvou-se por pouco de ser arrastado para o rio.

Com o vale do Âncora coberto por Luís Ramos Pereira e Laureano de Brito, e João Luciano Torres no Hospital de Caminha, coube a Damião Lourenço percorrer as freguesias rurais dos vales do Coura e Minho, onde persistiam muitos epidemiados apesar da diminuição do número de óbitos. Foi aqui que a sua ação clínica foi mais notória e louvada, como se constata pelas correspondências para o Correio do Minho ao longo do mês de novembro e início de dezembro:

Venade: "Ainda por cá temos a pneumónica, que tantas pessoas arremessou para o leito. O número de óbitos, felizmente, é que não tem sido proporcional ao número de epidemiados, graças à competência e ao muito incansável zelo do ilustre clínico Dr. Damião Lourenço Júnior. Sua Excº., na realidade, tem sido de uma dedicação inquebrantável. De manhã à noite, saindo de casa quando o sol ainda vem longe, para só reentrar quando já é noite alta..." (21-11);
Lanhelas: "A epidemia aqui vai decrescendo. Mas chegou a ser assustadora. A mortalidade que aqui tem, em épocas normais, uma média anual de 6, chegou a atingir 15 num mês!"; "A pneumónica, enfim, largou-me, graças aos esforços e ao saber do ilustre e proficiente clínico Exmº. Sr. dr. Damião Lourenço Júnior. Devo-lhe a vida, como centenas de outros que ele em tratado desvelada e carinhosamente.... E que o povo de Lanhelas, como de todo o concelho, saiba reconhecer todos os enormes benefícios que lhe fica devendo" (21-11);
Seixas: "Seixas — "O dr. Damião Lourenço, a qualquer hora da noite que o fossem chamar, mesmo debaixo de temporal, nunca se negou, dizendo sempre de sorriso nos lábios, com o seu permanente "vamos lá", chegando quase a ser vítima do conhecido desastre da ponte..."
(29-11);
Argela: "A bronco-pneumónica também por cá, embora mais tarde, assentou arraiais, tendo já causado algumas vítimas. É extraordinária a dedicação do sr. dr. Damião Lourenço Júnior pelos doentes da freguesia. Pena foi que s. Exª. não pudesse por aqui aparecer mais cedo, para arrancar alguns das garras da morte..." (6-12).

De personalidade forte, Damião Lourenço Júnior travou acesas polémicas com os seus adversários ao longo da sua vida pública, mas o advento da Ditadura Militar em 1926 e, depois, do Estado Novo, obrigou-o a retirar-se da arena política quando já tinha passado os cinquenta anos de idade. Valeu-lhe o seu prestígio profissional para assumir a tempo inteiro a prática da medicina, tendo sido, cumulativamente, facultativo do partido médico municipal, delegado de saúde e clínico do Asilo Silva Torres e do Asilo dos Mareantes, sem nunca deixar a prática privada. Faleceu em 1947 na sua Quinta da Cabana, perto do Largo da Senhora da Agonia, um ano após ter solicitado a reforma.

Paulo Torres Bento



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