Moradores de Moledo, nomeadamente os residentes na Rua da Costa, marcaram presença na Assembleia de Freguesia (AF) realizada no dia 27 de Setembro, a fim de manifestarem o seu desespero perante a situação que se vem agravando com a realização do Festival SonicBlast.
"Que haja festival para muitos anos mas não nos castiguem"
Ana Rosa Lindade, funcionou como porta-voz dos moradores que já reuniram com o presidente da Câmara e a quem apresentaram um abaixo-assinado de protesto pela forma como se desenrola esse festival de música electrónica no mês de Agosto e pelas consequências que decorrem para a sua saúde e para as suas habitações, conforme lhes sugerira Antero Igreja, presidente da AF.
Segundo se soube nesta assembleia, Junta e Câmara já reuniram por duas vezes a fim de analisar a situação e encontrar uma alternativa em local que não perturbe o sossego dos moradores que já aqui viviam antes da realização do evento iniciado há nove anos.
"É muito duro suportar tudo isto"
Esta moradora disse ter chegado a altura de dizer basta e insurgiu-se contra o facto de "ninguém nos ter contactado" a fim de obter as suas opiniões sobre esta iniciativa.
Referiu que três semanas antes já começa o barulho com o início da montagem dos equipamentos e conversas em voz alta até de madrugada, situação que se agrava três dias antes do início dos espectáculos, culminando com os dias do próprio festival, em que a música começa às três da tarde e vai até às três da madrugada, mas, precisou, "ainda ficam os perdidos da noite" e, às 6H, chega a empresa da limpeza com os sopradores (seringadores) e máquinas.
Ana Lindade disse ser "muito duro suportar tudo isto e ter de ir trabalhar no dia seguinte", nomeadamente para uma pessoa doente, como é o seu caso, para quem "o descanso é importante".
"Tudo estremece à nossa volta"
A poluição sonora é tal que "as casas e janelas vibram (havendo quem tenha de pôr cunhas nas nelas, como sucede a algumas pessoas que vivem mais afastadas)", prosseguiu esta moradora, secundada por outros, referindo uma moledense que há turistas que já abandonam as casas que arrendaram para esse período de férias de Agosto na parte baixa der Moledo, logo que começa o festival.
Interroga-se se as licenças emitidas para a sua realização referem que se encontra numa zona habitacional.
Se abordam os organizadores sobre esta situação, dizem-lhes que já têm um terreno alternativo em vista, como o fizeram em 2018, mas voltaram a realizá-lo no mesmo local (Parque Infantil), o qual fica bastante maltratado, referiram, a par de entrarem de noite nos seus quintais para fazerem as necessidades, e de os WC colocados no recinto terem "um cheiro nauseabundo".
"Só contamos de quatro em quatro anos"
"Quem nos ajuda?", interrogam-se os moradores, perante um situação que pretendem reverter, a que os próprios delegados da Assembleia de Freguesia não são alheios, como referiu José Lindade, porque "até a mim me perturba e estou afastado".
"Aquele não era o parque sonhado pelo senhor Manuel Gordão", desabafou ainda Ana Lindade, após sublinhar que "só contamos de quatro em quatro anos". Insistiu na degradação do parque infantil no final do evento em que os assistentes urinam nas árvores e as derrubam, recinto onde não existe, aliás, um único ponto de luz, tornando-se dessa forma num "espaço adequado para certos movimentos nocturnos".
Segundo referiram ainda, durante a reunião mantida com o presidente da Câmara este referiu que se tratava de uma "situação nova" e que havia agora um problema para resolver.
"Isto é o início de uma caminhada"
Este tema não deixou indiferente o presidente da AF, lamentando a fraca capacidade de intervenção deste órgão autárquico - "a Câmara Municipal nunca ouviu a Assembleia de Freguesia para emitir licenças", acentuou -, mas louvou a "reclamação" apresentada, vincando que "já devia ter sido feito há anos". Lamentou que a organização do evento musical nunca tivesse ouvido a AF e mostrou-se disposto a pressionar a Junta - a única coisa que poderiam fazer.
Junta e delegado reconhecem razão aos moradores
A Junta de Freguesia não ficou indiferente às reclamações dos moradores, com quem já tinha conversado, e Joaquim Guardão admitiu que tinham "explanado bem" a situação, apesar de "só agora se dirigirem cá".
Confirmou que se tinha deslocado ao local numa das noites do festival, confirmando com um sismógrafo que os valores eram altos (2.7 na escala de Richter), e apenas tinha estado lá meia-hora, frisou. Esta situação foi confirmada pelo delegado Fernando Monteiro, o qual também já se tinha dirigido à casa da moradora, comprovando as suas queixas, levando-o a concluir que aquele não era o sítio próprio para um festival daquelas características.
"As pessoas não podem viver assim"
Após admitir que nunca se tinham apercebido desta realidade, Joaquim Guardão confirmou que já reunira duas vezes com o presidente da Câmara com a finalidade de "encontrar uma solução porque as pessoas não podem viver assim", reconhecendo que "eu também me insurgiria" se fosse confrontado com situação idêntica.
Depois de reforçar que "isto só peca por tardio", assinalou que os danos causados nas casas e pessoas são da responsabilidade dos organizadores, sendo ainda analisada a perigosidade na utilização da piscina da AMIR.
Com o objectivo de tentar solucionar esta incompatibilidade entre os moradores e o percurso do festival, Joaquim Guardão adiantou que o presidente Miguel Alves irá falar com o promotor e "espero que se consiga resolver o problema que também é o nosso", assunto este que já mereceu diversas trocas de impressões com esta moradora.
Perante um pedido de esclarecimento do presidente da AF, sobre eventuais proveitos para a freguesia provenientes dos organizadores, Joaquim Guardão respondeu que "não conheço qualquer festival que dê benefício directo às juntas".
Projecto para parque de jogos abortado
Na tentativa de encontrar alternativas para a mudança do SonicBlast, o delegado Júlio Seixo recordou que quando fez parte da Junta (CDU e PS), no tempo de Manuel Gordão, o Pedro Abrunhosa pretendia criar um espaço musical no campo de jogos de Perrinchão. Os moradores foram contactados, concordaram após ter havido um ensaio e quando se preparavam para estabelecer um protocolo, a Câmara de Caminha liderada por Júlia Paula, influenciada por um dos donos de uma discoteca de Caminha (Alfândega), não concedeu a respectiva autorização, recordou o antigo membro da Junta de Freguesia.
Noites de Agosto complicadas
Nesta matéria de ruídos, outro morador de Moledo, Amílcar Silva, foi de opinião de que o problema da freguesia residia nos jovens ("meninos da noite") que a coberto da escuridão causam distúrbios e danos no mobiliário urbano durante o mês de Agosto. Em relação aos barulhos, referiu que tinha vivido durante 30 anos junto à linha do caminho-de-ferro e nunca se sentira importunado pela passagem dos comboios.