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Vila Praia de Âncora

Exploração de lítio

"Protesto e Repúdio" da Assembleia e Junta de Freguesia

População diz: "Nós não queremos"

Os seis delegados do PSD com assento na Assembleia de Freguesia de Vila Praia de Âncora apresentaram e viram aprovada por unanimidade na reunião da passada Segunda-feira, uma moção de "protesto e repúdio" contra o "atentado ambiental" que representará a prospecção e exploração de lítio na Serra d'Arga.

Após a leitura desta moção a cargo de Tiago Castro, Manuel Marques, presidente da Mesa da Assembleia de Freguesia (AF), aludiu sucintamente à "exploração maciça" da Serra d'Arga e que centrou o debate terminado uma hora antes em S. João d'Arga, no decorrer da reunião camarária descentralizada que aí decorreu, receando que a Bandeira Azul seja posta em cheque, entre outras situações perniciosas.

Perguntou então à bancada socialista se desejava associar-se a esta moção, respondendo afirmativamente Manuel Luís Martins, embora pretendesse discutir o texto.

"Isto não vai avante"

Os três delegados socialistas, de facto, concordaram "na generalidade" com a moção, reconhecendo que "faz sentido", conforme justificou Manuel Luís Martins a posição do seu grupo, embora houvesse "muita demagogia" no seu conteúdo, assinalou.

O eleito pelo PS disse ainda que discordava de "algumas afirmações" contidas na proposta apresentada pelo PSD no início da reunião, nomeadamente algum exagero nas referências ao ácido sulfúrico e crateras que surgirão como resultado das prospecções e explorações.

Apesar de todos os receios, Manuel Luís acredita que "isto não vai avante porque todas as câmaras estão contra", recordando ainda que a de Caminha e outras duas (Viana do Castelo e Ponte de Lima) querem criar uma área protegida na Serra d'Arga.

Reconheceu, no entanto, que se os projectos de prospecção e exploração de lítio forem aprovados, "nós (Vila Praia de Âncora) seremos o fim da linha".

"Quanta mais gente contra melhor"

Coube ainda a Tiago Castro a defesa da moção relacionada com "um tema muito delicado" e defendendo que "quanta mais gente estiver contra melhor", para que Lisboa não venha a decidir, porque "somos nós que levamos com a poluição provocada por empresas estrangeiras".

A moção refere-se ao Plano Nacional para a prospecção e exploração "sem precedentes" de lítio aprovado pelo Governo para a Serra d'Arga, abarcando ainda montes de outras freguesias, como será o caso de Riba d'Âncora (além de Dem, S. Lourenço da Montaria, Arga de Baixo e de S. João, Âncora, Vilarelho, Moledo ou Lanhelas).

Os ancorenses receiam que o rio Âncora e a Praia das Crianças possam ser afectados pela contaminação proveniente da montanha através dos ribeiros e rios, com as consequências gravosas ou irreversíveis para a saúde das pessoas e economia local que vive essencialmente do turismo e pesca.

"Isto será a desgraça de Vila Praia de Âncora"

Através da apresentação de mapas das zonas mineralógicas que as empresas estrangeiras pretendem explorar, e de fotografias aéreas da cratera das antigas pedreiras do lugar da Póvoa, Carlos Castro, presidente da Junta, evidenciou o seu posicionamento contrário à exploração temida para a Serra d'Arga e outros pontos do concelho.

O autarca ancorense desafiou - tal como o faria por duas vezes na Assembleia Municipal realizada dois dias depois - o presidente da Câmara a divulgar publicamente se era contra a prospecção e exploração em toda a área do concelho, e não apenas na Serra d'Arga.

É que Carlos Castro participou numa reunião de presidentes de junta com o presidente da Câmara, da qual se "apercebeu" que este seria a favor do lítio. Referiu também que as explorações na Serra d'Arga estariam previstas para o exterior da área protegida que as três câmaras pretendem criar e que as empresas extractoras apontam para as áreas onde exista mais quantidade desse mineral, não só na Serra d'Arga, como noutras freguesias, como seria o caso de Riba d'Âncora. Isto reforçaria o temor pelas consequências que acarretaria para o rio Âncora.

Recordados atentados das pedreiras

"Isto será a desgraça de Vila Praia de Âncora", assegura Carlos Castro, tendo aproveitado a ocasião para recordar que no tempo em que ainda funcionavam as pedreiras, durante o Inverno, quando chovia mais e os lagos enchiam, e a indústria extractora pretendia fazer mais extracções de pedra, eram obrigados a utilizar motobombas que canalizavam a água para o mar, sensivelmente em frente dos viveiros, aparecendo então uma mancha branca nas águas que fazia com que o peixe desaparecesse. O presidente da Junta deu conta que ele próprio fazia pesca submarina nessa zona e se apercebia do que se passava.

O presidente da Junta de Freguesia associou esta problemática à obra do IC1, depois A/28, recordando que o rio ficava cheio de lama quando chovia. "E a Retorta?", interrogou-se. "Foi-se!".

Carlos Castro teme que agora se passe o mesmo que com a Ancorensis e a Casa Benjamim…que "deu no que deu", concluiu.

Rematando, o presidente de junta social-democrata, baseado no que se passara nessa reunião com as juntas, refutou que as prospecções fossem inócuas, adiantando - baseado num mapa - que as empresas exploradoras desse minério procediam à abertura de crateras entre 100 e 300 metros de profundidade, incluindo a abertura de caminhos até elas, com recurso a maquinaria pesada.

"Intervenções desajustadas"

Estas apreciações não agradaram a Manuel Luís Martins, considerando este tipo de intervenções desajustadas e contribuindo para criar dúvidas a quem se encontra preocupado com a situação. O delegado socialista exprimiu ainda a sua insatisfação por se misturar a A/28 com o lítio.

"Nós não queremos"

A problemática do lítio começa a preocupar muitos ancorenses, assim como o excesso de "política", como ficou evidente através das palavras de Idalina Torres ao intervir "em nome de muitas pessoas que pensam como eu", no período destinado ao público nas assembleias de freguesia.

Após insistir que "Vila Praia de Âncora está a perder por causa da política", conclusão retirada face ao que "se passou" nesta reunião, levando-a a exclamar: "Basta!".

Além de analisar outras situações que abordaremos noutra edição do C@2000, Idalina Torres recordou que o caso do lítio ainda não está decidido, mas "nós não queremos", em referência ao povo ancorense: "E acabou!", rematou. Apenas pediu que estivessem todos juntos, porque a exploração do lítio será muito má para "nós", em alusão aos habitantes de Vila Praia de Âncora e sua actividade económica.


Edições C@2000
Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP

Da Monarquia à República no Concelho de Caminha
Crónica Política (1906 - 1913)

Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


O Estado Novo e outros sonetos políticos satíricos do poeta caminhense Júlio Baptista (1882 - 1961)

Organização e estudo biográfico do autor por Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


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Autor: Joaquim Vasconcelos
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Autor: Domingos Cerejeira
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