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Vila Praia de Âncora

100 tocadores de concertina
no centenário de Joaquim Barreiros

O dia de ontem foi de festa rija em Vila Praia de Âncora, com as celebrações do centésimo aniversário de Joaquim Barreiros, pai do popular cantor Quim Barreiros.

Foguetes e fogo-de-artifício (durante a noite, no decorrer do jantar de aniversário que reuniu 500 pessoas na Quinta do Cruzeiro) abrilhantaram a festa de Joaquim Barreiros, uma figura determinante na sociedade ancorense, com residência e local de trabalho no coração da vila, que atingiu os 100 anos de idade com muita jovialidade, sorriso aberto e capacidade física para interpretar com o seu inseparável acordeão duas músicas (um tango e "Mulher Gorda") - com muita mestria - apesar de que "já estou muito velhinho para tocar", admitiu perante centenas de convivas presentes no seu centenário e que não se cansaram de o saudar e aplaudir.

Foi deveras emocionante a entrada de 100 concertinistas no salão de festas desta unidade de restauração de Vile - tantos quantos os anos do aniversariante -, interpretando temas populares e tradicionais, à mistura com cantigas ao desafio cuja tema se centrava em Joaquim Barreiros - a figura do dia. Quim Barreiros, filho do senhor Joaquinzinho da professora, referiu após a arruada das concertinas, que a ideia de congregar 100 tocadores, partira de Miguel Alves, presidente da Câmara.

Quando trocamos algumas palavras com ele, e lhe dissemos qual o jornal que representávamos, disse logo: "Oh! Caminha, que terra tão linda. Fiz muitos bailes lá, até na sede do Sporting Club Caminhense, quando era presidente o dr. Luís Guerreiro".

Sim, porque a grande notoriedade de Joaquim Barreiros, além da que granjeou pela sua actividade profissional de reparador de bicicletas na oficina que ainda preserva e disfruta diariamente, foi a de músico, com o seu conjunto Alegria que fundou. Durante dezenas de anos "tocámos em todos as terras dos concelhos do Alto Minho", registou.

Mário Lagido, com 91 anos, no dia de ontem, não largou a Praça da República - onde uma banda de Santarém veio interpretar temas comuns aos tempos do conjunto Alegria e alguns tocadores de concertina animaram a tarde, a que não faltou um porco no espeto ("Ai que não vai chegar", temeu o cantor Quim Barreiros, filho do aniversariante, quando se apercebeu da quantidade de amigos que acorreram a felicitar seu pai).

À noite, lá estava no jantar.

"Um homem com H grande"

"Já antes dos 15 anos que eu conhecia o Joaquim Barreiros", explicou-nos Mário Lagido, ainda na Praça da República, em frente da oficina de bicicletas "do meu amigo Joaquim" repleta de memórias de uma vida repartida entre a actividade profissional (reparação de veículos de duas rodas) e a música.

E conhecia-o porque "o meu irmão Cesário foi quem tocou com ele primeiro e os ensaios decorriam na casa do meu pai". A partir dessa idade, "passei a andar junto com eles", completou a sua entrada no Alegria, conjunto em que se manteve durante mais de 30 anos, além de ter passado pela banda do Lírio, não se esqueceu.

Definiu Joaquim Barreiros como "uma excelente pessoa, um homem com H grande, extremamente educado e muito dado à amizade com as pessoas e sempre nos demos muito bem".

Pronunciando-se sobre os seus dotes musicais, precisou que embora "tocasse de ouvido, tocava bem, à maneira dele e apesar de ainda ter andado a aprender com o meu irmão, desistiu logo", porque a sua aptidão era inata, pouco dada a ensinamentos, completou o seu raciocínio, entrecortado com gargalhadas, porque quem convivia com Joaquim Barreiros, estava sempre alegre.

Mário Lagido, pertencente a uma relevante família de músicos ancorenses, tocou saxofone contralto e, "por fim, tocava ali as cordas do rabecão", explicou-nos, sempre rindo.

Marcou presença permanente nas festas da Praça da República e da Quinta do Cruzeiro, porque "tenho muita amizade com ele e não podia faltar", revelando que lhe tinha dado um abraço de parabéns "logo pela manhã", correspondendo assim a um convite que "ele me tinha dirigido já em Dezembro, quando me encontrou e me disse que não quero que faltes", assim como o filho Cláudio o fez.

Estórias (com piada) dos tempos em que calcorreou as terras minhotas com o Alegria, na companhia de Joaquim Barreiros, "há muitas", admitiu, mas uma delas que "acabou por ter sido, na altura, bastante aborrecida para mim, foi quando fomos tocar a Vila Nova de Cerveira mas por causa do tempo, não houve baile e ficou adiado para outra altura". Então,"já andava com o rabecão, e transportávamo-lo em cima do carro, mas esqueci-me de o apertar e quando o carro arrancou, escaqueirou-se todo", vendo como os demais elementos do grupo se fartaram de rir e, "eu, chateado".

"É uma jóia que aqui está"

A vizinhança que acompanhou grande percurso da sua vida, só aponta encómios a Joaquim Barreiros, como é o caso da irmã Ercília que há já 70 anos que convive diariamente com o seu vizinho, o senhor Joaquinzinho da professora (sua mãe foi professora em Freixieiro de Soutelo e foi nesta freguesia do Vale do Âncora que o agora centenário, nascido no Brasil, teve a primeira loja de bicicletas).

A irmã Ercília recordou as lições de condução que o senhor Joaquim deu à madre superior da congregação (já falecida), após esta ter realizado uma vagem de automóvel a Lisboa, mas que não correu muito bem, porque já tinha tirado a carta um pouco tarde.

"É uma jóia de pessoa", quando lhe solicitamos uma apreciação ao seu vizinho, considerando até que "o deviam avisar de tanta festa que lhe estão a fazer (nunca vi coisa igual aqui na vila), porque lhe pode dar uma coisa", temeu. O que não se verificou, felizmente.

Com exemplo do convívio e entendimento existentes entre todos, referiu que uma das miúdas abrigadas nesta instituição religiosa, costuma ir "despejar o lixo e ele pede-nos sempre para que lhe digamos para passar pela loja dele a fim de levar uma latinha de lixo, dando-lhe sempre umas moedas.

"É muito boa pessoa. Oxalá durasse mais 50 anos".

"Hoje estamos a celebrar a sua vida"

Ouvimos igualmente Miguel Alves, presidente do Município de Caminha, sobre este dia "muito especial para o município de Caminha, porque é de alegria e de convívio".

No seu caso particular, deu relevo a este aniversário, porque "estamos a homenagear alguém que viveu 100 com muita alegria e intensidade", a par de ter conhecido "o tio Joaquim Barreiros desde o tempo em que ele tocou com o meu tio Mendonça durante muitos anos, muito tempo antes de ele ser só o pai do Quim Barreiros, e quando já se tornara uma referência do concelho de Caminha, de Vila Praia de Âncora e de todo o norte".

Recordou que "tivemos oportunidade de o homenagear institucionalmente, há um ano, na Câmara Municipal, por ocasião do Encontro de Tocadores/Entre Margens e, hoje estamos a celebrar a sua vida de grande alegria, histórias, entusiasmo e de partilha" que conseguiu "transportar para mim".

Por tal motivo, "estou aqui institucionalmente, mas também muito empenhado ao lado da família de Joaquim Barreiros".

"A vila está em festa"

Recolhemos igualmente o depoimento de Carlos Castro, presidente da Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora, uma vila "que está hoje em festa - em que todo o dia houve foguetes e festa na praça - porque são 100 anos de uma pessoa com um grande coração, humildade e com raízes familiares enormes", destacando o nome de Quim Barreiros que "tem levado o nome de Vila Praia de Âncora a todos os cantos do mundo".

Por todas estas razões, "o aniversariante está de parabéns", destacando ainda "o "fabuloso jantar a terminar, com a presença de algumas centenas de pessoas, amigos de longa data, e tenho conhecimento que vieram amigos e familiares de muito longe, como o Brasil, Canadá, e de todos os pontos do país", sinal evidente da "grande amizade que ele tem em todo o mundo", vincou o autarca ancorense.

"É uma vida, ou algumas vidas, como se costuma dizer"

De entre a centena de tocadores provenientes de todo o Minho, encontrava-se Armando Franco, de Vila Franca do Lima, figura bem conhecida e persistente das Festas de S. João d'Arga, não só pela alegria e entusiasmo com que toca este instrumento, mas também pelos seus bigodes retorcidos que o celebrizam. Com a sua experiência nestas andanças, como que comandava a segunda leva de concertinistas a entrar no salão. Reconheceu que este "vício" era caro, porque os instrumentos custam dinheiro, mas que era "muito bonito".

Quisemos saber a razão de tantos tocadores nesta festa, respondendo-nos sem hesitação que tal adesão se devia a "uma homenagem ao Quim Barreiros pai, centenário". Respondeu desde logo afirmativamente a quem organizou esta concentração de concertinistas, representando mais concretamente uma "homenagem" ao tocador do que o próprio aniversário em si, apesar de "100 anos, não serem 100 dias. É uma vida, ou algumas vidas, como se costuma dizer".

"É uma felicidade saber que o nosso pai chegou aos 100 anos"

O filho, Quim Barreiros, principal obreiro da festa prestada a seu pai, e que incluiu ainda um almoço reservado à família nesse dia, admitiu perante o C@2000 (sem que antes desse uma das suas gargalhadas características) que não se tratava apenas de ter um pai, porque, frisou, "isso, temos todos nós", mas principalmente "ter um grande pai e saber que é estimado por toda a gente, não só de agora, mas desde que eu me lembre, porque ele deixou sempre a porta aberta por todo o lado", além de se ter destacado por ser "o maior acordeonista de Viana do Castelo", tendo percorrido todas as colectividades e feito "estas festinhas todas".

"Assim, isto para nós, é uma felicidade. Saber que o nosso pai chegou aos 100 anos".

Logo pela manhã deste dia, o filho Quim Barreiros deu-lhe um grande beijo e um abraço, pormenorizou. Porque, justificou, "não há muitas palavras a dizer-lhe. Nós falamos todos os dias".

"E sabe o que ele me disse? Oxalá eu esteja cá também, quando tu fizeres 100 anos", rematando a sua curta mas expressiva declaração, com mais uma sonora gargalhada.

No decorrer do jantar, Quim Barreiros expressou a sua admiração pelo calor humano que envolveu o seu pai durante todo o dia, bem como em relação àqueles que vieram de bem longe (EUA, Brasil, Canadá) para felicitarem ao seu pai, e citou o caso de Armando José Tavares que pagou o fogo de artifício lançado ao longo desta jornada.

"É o melhor pai do mundo"

Após insistir que o seu pai "era o melhor do mundo", deu a palavra a suas irmãs e ao seu irmão Cláudio para que expressassem o que sentiam nesse dia.

Cláudio agradeceu a presença de todos e à equipa ("os meus ajudantes de trabalho") que durante um ano prepararam esta festa que permitiu naquele momento enviar "um grande beijo ao meu amigo, irmão e pai e que foi tudo para mim, durante 30 anos que trabalhei com ele".

Antes de serem cantados os parabéns e Joaquim Barreiros cortar o bolo com um desenho em alto relevo de um acordeão, Quim Barreiros e o seu conjunto cantaram dois dos temas bem conhecidos (Mestre de Culinária e Quero cheirar teu Bacalhau) e uma canção (rockeira) em inglês.

Cantares ao desafio

Elementos do Sons do Minho e do Grupo do Canário também subiram ao palco para umas canções à desgarrada, em que o tema foi o aniversariante, como não poderia deixar de ser:

- Para o senhor Quim Barreiros, que eu quero cumprimentar e fazer um comentário, sou o Cândido Miranda e às vezes canto com o Canário, quero desejar ao senhor Barreiro, um feliz aniversário.

- Ó que noite tão airosa, e em abono da verdade, boa-noite à sala inteira que se reuniu com vaidade, para bem do senhor Barreiros, que chegou à flor da idade e não culpa das minhas quimeras, palmas para o pai Quim Barreiros e para as suas 100 primaveras.

- Está vivo, está honrado, ainda tem a mocidade, até os próprios filhos, no rico pai têm vaidade, parabéns senhor Barreiro, pelos 100 anos de idade.

- P'ra vos dizer a verdade, eu já vou dizer assim, a festa está tão bonita, inda não chegou ao fim, mas quem foi disto grande obreiro, foi o nosso amigo Quim, e que ninguém me leve a mal, se eu agora der um abraço ao maior artista de Portugal.

- O falar bem é normal, o povo concorda de certeza, quando se ri o Quim Barreiros, há risada de certeza, ou não estivéssemos nós a falar do rei da música portuguesa.

- E vós que estais aí à mesa, por certo com este brilho, parabéns amigo Quim Barreiros, que nos meteste num sarilho, de vir aqui testemunhar o amor de pai e filho.

- Isto me causa sarilho, isto é uma mudança, o Quim Barreiros artista, tem a música e dança.

- Também acabo nas calmas, e um abraço em geral, se eu saudasse apenas alguns, na foto ficava mal, um abraço senhor presidente da Câmara Municipal, por apoiar a gente boa e a cultura tradicional.

Porque este momento genuinamente minhoto, Quim Barreiros pediu a Jorge do Carmo ("o homem que faz os meus discos"), vindo expressamente de Lisboa, para tocar à guitarra com o seu filho Jorginho, de 8 anos, à bateria, pondo final à série de actuações e animação proporcionada a todos numa noite especial, que culminou com a visualização de fotografias da vida desta figura centenária, e a quem coube apagar as velas, cortar a primeira fatia do bolo e receber as habituais prendas de aniversário.

NOTA : Como facto curioso da vida deste músico popular que deu cartas em todo o Minho, refira-se que aquando da sua passagem ainda novo por Freixieiro de Soutelo, mandou fazer um anel com base numa pepita de ouro encontrada no regueiro de Soutelo, no lugar do Poço Negro.

É de referir que nas minas de volfrâmio de Rio Bô, também deveriam ter sido explorados filões de ouro aquando da passagem dos romanos pela região, evidência, portanto, da existência de alguns restos desse minério nessa freguesia e que Joaquim Barreiros aproveitou para perpetuar nesse pequeno adorno pessoal.



Edições C@2000
Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
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Crónica Política (1906 - 1913)

Autor: Paulo Torres Bento
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Organização e estudo biográfico do autor por Paulo Torres Bento
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