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Estreia no Valadares

Diálogo entre Luciano Pereira da Silva e Jaime Cortesão

Uma conversa ficcionada entre dois amigos reunidos à mesa, de uma noite em período natalício, em casa de um deles, ao Terreiro, em Caminha, em princípios do século passado, serviu de mote a António Roma Torres, médico psiquiatra, crítico de cinema, para escrever uma peça de teatro, a que deu o nome de "Novo Céu".

Luciano Pereira da Silva e Jaime Cortesão, foram os personagens escolhidos pelo autor da peça encenada pelo Teatro do Noroeste-Centro Dramático de Viana para as comemorações do nascimento do lente caminhense e aqui estreada no passado dia 21.

Antes de estreia, no bar do Valadares, Paulo Torres Bento apresentou o livro "Novo Céu", um título impregnado de alguma simbologia com a investigação desenvolvida por Luciano Pereira da Silva no campo da astronomia.

Autor apreciou

Do livro ao palco vai alguma distância.

António Roma Torres, sobrinho-neto de Luciano Pereira da Siva, já abordara a sua aposta nesta produção literária, aquando da apresentação do programa das comemorações.

Agora, pedimos-lhe que fizesse uma apreciação à encenação apresentada pelo grupo de teatro de Viana do Castelo:

"Eu acho que quando o texto é representado, transmite-se sempre aquilo que o autor pretendia. Mas, uma coisa é o texto e outra é o espectáculo e a produção. São duas obras. É uma obra em cima de outra obra.

Respeito a forma como foi feito e acho que valorizou aquilo que era preciso, quer neste contexto de homenagem ao Luciano Pereira da Silva, quer à minha contribuição com a peça que eu fiz.

No entanto, eu não posso ver esta peça como qualquer outro espectador, porque foi escrita por mim. Espero é pela opinião de outras pessoas".

Actor caminhense na figura de Jaime Cortesão

Tiago Fernandes, com provas dadas na arte cénica caminhense, interpretou o papel de Jaime Cortesão nesta peça apresentada na noite de Sexta-feira, no Cineteatro Valadares, após dois meses e meio de preparação e ensaios.

No final da representação, revelou ao C@2000 "as dificuldades sentidas na interpretação da minha personagem (Jaime Cortesão)", uma figura desconhecia para ele, ao contrário de Luciano Pereira da Silva, cujo nome e obra já lhe eram familiares, mas do qual "fiquei a conhecer imenso", mas "não sabia quão importante era esta figura que temos de honrar e lembrar, sempre, pelo seu legado, porque é um orgulho para Caminha".

Admitiu que o seu papel de Jaime Cortesão, serviu de "suporte para dar a conhecer a figura de Luciano aqui na nossa terra", acabando por ser um "desafio muito gratificante", atendendo ao próprio texto que "não era nada fácil", levando o Centro Dramático de Viana a levar por diante uma abordagem especial de modo "a tornar o espectáculo mais interessante e didáctico", puxando por aquilo que o texto mais exigia e criando um processo de multimédia deveras rigoroso.

Tiago Fernandes, manifestou-nos o seu agrado por ter tido a honra de pisar mais uma vez o palco do Valadares, "o que é sempre uma grande emoção para quem é daqui".

Não descartou a possibilidade de voltar ao palco para mais representações do "Novo Céu", encenado no início de uma nova época, de imenso trabalho, considerando por isso inglório que se ficasse por uma única actuação.

Encenação virtual e real

Os dois actores liam os diálogos entre os dois amigos que se encontraram uma vez mais em Caminha, num Natal qualquer dos primeiros anos de 1900, ao mesmo tempo que eram passadas na tela imagens em filme de ambos, caracterizados, numa "sala de jantar" da casa de Luciano, no Terreiro (mais tarde conhecida pela Casa das Torres, para onde as suas sobrinhas, Isabel, Maria e Cristina foram morar após a morte do tio em 1926), com "uma mesa ao centro onde as duas personagens acabam uma refeição. Por trás um relógio de parede ao centro e, ladeando, dois armários de louça".

Esta sobreposição do filme com a realidade, obrigou a uma atenção redobrada dos espectadores, divididos entre a imagem e a representação.

- "Excelente jantar, Professor Luciano. Formosa a vila de Caminha. E excelente casa esta."

" - Tem duzentos anos. Acabei de a comprar. E estou a restaurá-la. Mas já vou habituando. É a minha casa. Quero viver cem anos. Aqui posso descansar. E estudar. Depois o reino dividir-se-á".

Assim teriam decorrido os primeiros diálogos entre ambos, com "a Espanha ali em frente. Santa Tecla.", acompanhados por "um Porto muito bom" com que o anfitrião presenteou o convidado.

Primeiro, a conversa decorreu de uma forma distendida, passando seguidamente aos grandes temas da época: as convulsões da República, a I Grande Guerra, o Céu e as estrelas.

A peça deriva depois para personagens da história portuguesa. Luciano e Jaime transfiguram-se e encarnam nos mitos de D. Nuno Álvares Pereira e do Infante D. Henrique, com o mar e o firmamento sempre presentes.

A notícia da tragédia da morte de Luciano por um louco a quem habitualmente dava esmola, aparece na narrativa final desta peça, descrita - desta feita, sem ficção -, pela pena de Jaime Cortesão, seguindo-se nova reincarnação das personagens, em voz off e na de Jaime, descrevendo a revolta de 7 de Fevereiro de 1927, no Porto, em que o "reviralho" viria frustrados os seus intentos de apear a ditadura de 28 de Maio. Outra tragédia (política) dentro do semblante negro do final da representação, dominada pelo desaparecimento, meses antes, de um caminhense a quem "a história da ciência náutica deve serviços incalculáveis", como escreveu o amigo Jaime Cortesão acerca de "uma das mais altas e mais representativas mentalidades de Portugal".


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