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Luciano Pereira da Silva

A importância da obra "Astronomia dos Lusíadas"

Caminha

Muitas das facetas da vida e obra de Luciano Pereira da Silva foram escalpelizadas no decorrer das Comemorações dos 150 Anos do seu nascimento levadas a cabo pelo Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha, Câmara Municipal e Centro de Formação do Vale do Minho nos passados dias 21 e 22.

"Uma figura eminente e ímpar na ciência portuguesa", foi desta forma que Henrique Leitão, Professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa - um dos intervenientes no colóquio interdisciplinar integrado nas comemorações - classificou os estudos de Luciano Pereira da Silva, e o seu contributo para a interpretação da marinharia portuguesa, baseando-se na obra dos Lusíadas, de Luís de Camões.

A prelecção de Henrique Leitão foi uma das mais interessantes deste colóquio, revelando uma série de dados sobre os conhecimentos e regras náuticas dos navegantes portugueses na época das descobertas.

"Ele marcou a bitola"

A reprodução fac-similada da "Astronomia dos Lusíadas" (ver texto próprio) apresentada durante estes actos evocativos de Luciano Pereira da Silva, só por si, voltou a justificar a importância desta obra que "irrompe inesperadamente no início do século XX" pela pena de Luciano Pereira da Silva, frisou Henrique Leitão, após salientar "o papel técnico-científico" que o lente caminhense da Universidade de Coimbra teve, ao estudar os conhecimentos astronómicos e náuticos da marinharia portuguesa dos séculos XV e XVI.

Para muitas pessoas de Caminha, conhecedoras minimamente da faceta de investigador do seu ilustre conterrâneo, a relação entre a interpretação dos Lusíadas e a aventura (científica) dos portugueses através dos oceanos que Luciano Pereira da Silva provou, ficou, uma vez mais evidenciada pelas palavras deste professor universitário.

O aparecimento de Luciano Pereira da Silva e de outros investigadores portugueses a estudar os conhecimentos náuticos e astronómicos dos navegadores aquando das descobertas, surgiu a partir dos séculos XVIII e XIX, quando algumas potências europeias (Alemanha, França, Itália) começaram a pretender ocupar territórios portugueses em África.

Por tal motivo, Portugal teve necessidade de justificar tecnicamente as suas viagens marítimas e a ocupação das colónias, daí resultando a apetência dos investigadores e historiadores pelo estudo científico das viagens por mar, nomeadamente até à Índia e Extremo Oriente.

A publicação da "Astronomia dos Lusíadas" em 1915, surge na sequência deste movimento, ao qual não teve seguimento outro projecto baseado no estudo de um dos maiores astrónomos da época de Camões: Pedro Nunes, cuja obra Luciano Pereira da Silva pretendia igualmente estudar, mas que a morte prematura e trágica em Agosto de 1926 não deixou vingar.

Foi interessante constatar através do relato de Henrique Leitão, que os pilotos das naus portuguesas saídas de Lisboa, tinham instruções precisas para criarem um registo de bordo, do "dia-a-dia", em que anotavam diversos dados de orientação naútica e de astronomia, incluindo as linhas magnéticas.

Existem actualmente 400 registos de bordo dos navegantes portugueses, mas, apenas 40 estão estudados, lamentou.

Referiu ainda que se deve a um português (Luís Teixeira) a elaboração do primeiro documento (1585) com as linhas magnéticas dos locais pelos quais os barcos passavam, baseado nas medições feitas com os instrumentos existentes na época.

As naus partiam para o Golfo Índico, em datas estabelecidas com rigor e baseadas em cálculos muito precisos da duração das viagens, no intuito de evitar a épocas das monções quando aí chegassem, contornando assim o perigo das tempestades habituais nessas estações.

Camões inspirou "Astronomia dos Lusíadas"

Coube a Máximo Ferreira, director do Centro Ciência Viva de Contância, proceder a uma interpretação da poesia e mitologia clássica constante nos "Lusíadas", tal qual Luciano Pereira da Silva o fez na "Astronomia dos Lusíadas", de modo a provar que no seu conteúdo existem dados irrefutáveis de que as viagens marítimas não eram feitas ao acaso, antes precedidas de estudos científicos e revelando conhecimentos relevantes para a época em que elas decorreram.

Exemplificou através de diversos extractos da Epopeia dos Descobrimentos, como esse livro de Camões indica dados precisos de astronomia mesclados com nomes da mitologia clássica.

Máximo Ferreira salientou um pormenor (coincidência), referente à data em que os portugueses dobraram pela primeira vez o Cabo das Tormentas, em 22 de Novembro de 1497: Foi um dia antes, a 21 de Novembro, mas de 1864, que nasceu Luciano Pereira da Silva.

Luciano e a Universidade de Coimbra

Carlota Simões, Professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, falou da criação do Gabinete de Geometria da Universidade de Coimbra por Luciano Pereira da Silva, em 1913, e da montagem de uma exposição de Matemática e Natureza baseada em aquisições de diversas peças que chegaram todas, ou quase todas, aos nossos dias.

Ensino da Astronomia nunca foi autónome

O percurso do ensino da Astronomia nos currículos escolares, e a dependência desta ciência de outras disciplinas, foi uma constante mesmo antes da República, conforme referiu Agostinho Oliveira, da Escola Secundária de Caminha.

Este professor enumerou as diversas opções tomadas pelos diferentes ministérios na aprendizagem da astronomia e lamentou o desaparecimento do "contacto com os céus" a que se assiste nos dias de hoje.

Agostinho Oliveira recordou uma intervenção do então deputado Luciano Pereira da Silva às Cortes, em 1903, em que apresentou uma série de propostas de reforma do ensino, sendo uma delas a abolição do livro único

Para dar uma ideia da iliteracia de Portugal, referiu que em 1911, em Portugal, havia 75% de analfabetos. Na Suécia, 30 anos antes, era apenas de 0,4%.

Matemática Actuarial

O Matemático Luciano Pereira da Silva valeu-se ainda dos seus conhecimentos nesta área para intervir nas avaliações dos preços e prémios a praticar pelas companhias de seguros da época, no que é conhecido por matemática actuarial, conforme explicou outra das conferencistas, Ana Patrícia Martins, especialista em matéria de seguros.

Citou as presenças de LPS em diversos congressos versando a matemática actuarial e a correspondência trocada com Fernando Brederote, outro especialista nesta área, relativa à aplicação desse método matemático.

Falta biografia

A ausência de uma biografia de Luciano Pereira da Silva impede conhecer mais circunstanciadamente o relacionamento entre Luciano Pereira da Silva e Sidónio Pais, nomeadamente na recta final da vida deste, acentuou Malheiro da Silva, da Faculdade de Letras do Porto, ao completar o painel de palestrantes neste seminário, antes que Paulo Torres Bento encerrasse as intervenções.

Malheiro da Silva admitiu uma "relação estreita" entre ambos mas disse que seria "interessante" saber o que discutiam em termos políticos. Contudo, não existem "elementos concretos" que permitam retirar conclusões, frisou.

Publicação das actas do seminário

Era aguardado com alguma expectativa, aquilo que o professor e historiador local Paulo Torres Bento teria a comunicar aos participantes inscritos no seminário, e àqueles que acompanharam o desenrolar das intervenções.

Antes de desenvolver e divulgar as suas investigações, este professor recordou que todas as intervenções deste seminário serão publicadas num livro de actas que o município caminhense se comprometeu a assumir.

Este professor da escola caminhense e principal impulsionador das comemorações dos 150 Anos do nascimento de Luciano Pereira da Silva, centrou o seu estudo neste personagem, naturalmente, e no ambiente de Caminha da sua época.

Acentuou que apesar da presença mais assídua de Luciano Pereira da Silva em Coimbra e Lisboa, e das suas viagens pela Europa (essencialmente) e Médio Oriente, nunca deixou de ter uma ligação forte à sua terra natal, a que regressava frequentemente e recebia na sua casa do Terreiro muitos amigos, na sua maioria, pessoas ligadas à ciência, letras e política.

Citou ainda a presença na casa solarenga do Terreiro que adquirira em 1916 e na qual passara a viver, dos pilotos de dois hidroaviões provenientes de Aveiro e que tinham aterrado no rio Minho em 1929, cujo almoço lhes foi servido no seu domicílio.

Paulo Bento explicou que a sua produção literária e científica decorreu essencialmente nos últimos 13 anos da sua vida interrompida abrupta e tragicamente aos 62 anos, em que produziu inúmeros trabalhos, incluindo o célebre "De Roca ao Norte" (obra inacabada), e um artigo publicado numa revista sobre a Igreja Matriz,estes dois, relacionados com a região.

Como resultado da consulta feita em diversas fontes - incluindo a própria família de LPS - e com o apoio do colega Joaquim Aldeia, Paulo Bento reconstituiu o núcleo familiar do lente.

Após a morte do pai - amanuense e escrivão municipal - quando apenas tinha oito anos, LPSilva foi apoiado por quatro pessoas do seu meio familiar: um padrinho, Luciano de Amorim e Silva, médico municipal durante meio século, primeiro presidente dos Bombeiros Voluntários de Caminha e Administrador do Concelho: a sua irmã e madrinha Maria das Dores; o tio-materno, António Agostinho Coelho da Silva, "recebedor da Fazenda" e Provedor da Misericórdia de Caminha; e a própria mãe, Isabel Joaquina Coelho da Silva, que, pouco antes de se casar, se tinha matriculada na Escola de Farmácia Anexa à Escola Médico-Cirúrgica do Porto, como praticante de Farmácia (a família herdara a Farmácia Torres, a qual dirigiu com um genro durante 40 anos, no rés-do-chão do edifício onde nascera o seu filho Luciano e demais cinco irmãs), facto raro para uma mulher daquela época.

Luciano Pereira da Silva terá iniciado os estudos primários em Caminha, com um explicador particular, ou, em Viana do Castelo, cidade onde realizou o exame da instrução primária. Mais tarde, foi aluno interno do Colégio S. Carlos, no Porto, tendo sido definido por um professor como "uma inteligência precoce" que o levaria a matricular-se na Universidade de Coimbra "com 15 anos incompletos", em Matemática e Filosofia, referiu Paulo Bento. Mais tarde, iria para Lisboa.

Apesar deste seu afastamento de Caminha, LPS nunca deixou de vir à sua terra natal nos períodos de férias, beneficiando da chegada do caminho de ferro a esta vila em 1878. Os seus êxitos universitários ("vertiginoso percurso académico", assim se exprimia o jornal Estrela de Caminha), eram referência habitual na imprensa da época.

O historiador citou diversas expressões utilizadas então para classificar o brilhante percurso académico daquele que se tornaria lente em Coimbra, como a sua "fidalguia do talento e do trabalho", cujo doutoramento em Matemática em Janeiro de 1889, teve honras de cobertura jornalística na imprensa caminhense, a par de recepção "apoteótica" que teve quatro meses depois, quando voltou a Caminha, logo na chegada à estação do caminho de ferro.

A caracterização da vila nessa época mereceu uma referência especial no decorrer da prelecção de Paulo Bento, quer no aspecto urbanístico, quer na construção de alguns dos edifícios mais emblemáticos, como o Valadares e a Alfândega, tendo sido ainda demolidas algumas torres e muralhas.

A instabilidade política vivida em Caminha, "no estertor" da Monarquia, teve consequências na vila, assunto abordado pelo historiador, ao referir que Luciano Pereira da Silva absteve-se sempre de participar na política local, ao invés do que sucedeu a nível nacional, em que foi deputado e Governador Civil de Coimbra.

Com deputado eleito pelos regeneradores, chegou a realizar uma intervenção no parlamento, contra a desanexação do concelho de Caminha das freguesias de S. Lourenço da Montaria, Amonde e Freixieiro de Soutelo.

Com o advento da República, LPS não voltou a dedicar-se à política, centrando-se essencialmente nos estudos e publicação de textos e livros, o que concretizou nos últimos 13 anos da sua vida.

Paulo Bento citaria ainda uma série de nomes de intelectuais e cientistas portugueses e estrangeiros, presenças habituais na sua casa, além dos caminhenses com quem privava habitualmente quando aqui passava algumas temporadas, incluindo o médico e seu colega de Coimbra, Lúcio Martins a Rocha e que viera casar a Caminha, e José Lino Lourenço da Serra, de Venade, professor de Português e Inglês no Liceu Sá de Miranda, em Braga. De uma geração posterior, adiantou os nomes de Bento Serafim Coelho da Rocha, Francisco Odorico Dantas Carneiro, presidente da Camara durante o Sidonismo e grande parte do Estado Novo e Manuel Pitta de Avillez, historiador de Caminha. Todos conservadores e monárquicos, o que atesta as convicções de LPS - embora sem qualquer actividade política de registo em Caminha - mas sem deixar de manter relacionamentos estreitos com outras pessoas possuidoras de "outras visões do mundo", acentuou, dando como exemplos Joaquim de Carvalho e Jaime Cortesão, que viriam mais tarde a ser perseguidos pelo regime saído do 28 de Maio.

As suas caminhadas e as idas "a banhos a Âncora", eram objecto de várias referências na imprensa local, durante as suas estadias na vila para "descansar" e assistir às festas populares.

Paulo Bento descobriu ainda que um dos hábitos de Luciano Pereira da Silva era ir na barca até à Pasaxe, a fim de visitar o Colégio onde estavam exilados os Jesuítas portugueses, entre os que se encontrava o padre Antunes Vieira.

Esta abordagem à vida e obra de Luciano Pereira da Silva terminou com a sua morte trágica, num Domingo, 15 de Agosto, Dia da Padroeira de Caminha (NªSª da Assunção), data em que foi esfaqueado na região abdominal por um louco, vindo a falecer dois dias depois.

Paulo Bento contextualizou a época conturbada que se vivia na altura, três meses após o golpe militar de 28 de Maio, em que não havia administrador do concelho.

Revelou alguns dados sobre uma eventual premeditação do autor do assassínio e as referências na época à existência de uma lista de pessoas ilustres de Caminha que ele possuiria, as quais pretenderia matar, a par de ter ido afiar a faca a um ferreiro, dias antes de cometer o crime.

Encerrando o colóquio, Miguel Alves, presidente do Município, após agradecer aos seus participantes a presença nesses dois dias analisando e debatendo "um homem complexo" e "com vontade de participar, não se alienar e querer ser parte de alguma coisa", de "algo maior, quando o país escurece".

Definiu Luciano Pereira da Silva como "um homem que quis ser professor mas, nunca deixou de ser aluno".

Miguel Alves salientou a oportunidade que as reflexões emanadas deste colóquio poderão representar para o futuro do concelho, pois, adiantou: "Há muitas coisas que podemos fazer com a ciência".

A par da realização corpórea (publicação das actas) do que aqui foi dito e debatido, acrescentou, a realização de uma Universidade de Verão no próximo mês de Setembro que "nos possa falar do mar e das suas potencialidades", é um projecto em elaboração. O autarca precisou que essa iniciativa poderá ter como base a discussão que se tem vindo a produzir com diversas entidades, nomeadamente as universitárias, sobre o que se passou na Duna dos Caldeirões, em Vila Praia de Âncora. Terá agora como referência o Doutor Luciano Pereira da Silva.


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