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Raid automóvel de 1922
passa por Caminha

No verão de 1922, em plena Primeira República, a ABC — Revista Portuguesa, magazine de fotojornalismo dirigido por Rocha Martins, organizou um raid automóvel pelo país em colaboração com três firmas estrangeiras ligadas ao ramo então a instalar-se em Portugal — FIAT (veículos), SHELL (combustíveis) e GOODYEAR (pneumáticos) —, numa ousada campanha publicitária para aumentar a popularidade do novo meio de transporte, desporto e recreio. Para a ABC, revista sediada na capital, a iniciativa serviu ainda como pretexto para fazer reportagem pela província e denunciar o desastroso estado geral das estradas portuguesas e, como veremos, das... pontes. O automóvel não constituía já uma surpresa para a maioria — data de 1895 o primeiro exemplar em Portugal, um Panhard & Levassor importado pelo Conde de Avilez — mas eram ainda raros os que circulavam por terras distantes dos grandes centros urbanos. Em Caminha, lugar de passagem e de fronteira, a novidade fora assinalada logo em 1905 quando a Câmara Municipal deliberara, enquanto proprietária, "taxar a passagem dos automóveis na ponte de madeira sobre o Coura, em 200 reis cada passagem, e as motocicletas em 40 reis também pela passagem de ida e volta" (Ata CMC 23-11-1905).

Estava-se ainda na fase artesanal da produção automóvel, em que o feliz possuidor de um veículo novo e candidato a automobilista, adquirido o motor, encomendava depois a sua carroçaria e decoração interior numa oficina especializada. Foi o que se passou com o Fiat 501 utilizado no raid da ABC, cuja "carosserie de viagem" foi executada na firma Oliveira & Costa, ficando as afinações por conta da oficina da marca italiana em Lisboa, concretamente de "J.Miranda, chefe das oficinas, M.Ribeiro e M.Sousa, mecânicos, e os aprendizes Cheribibi e Pirilau". Partindo da capital, com o jornalista Sanches de Castro (e um acompanhante) ao volante, o denominado Raid de Portugal chegou ao Porto no dia 23 de Julho depois de percorridos uns espantosos "639 quilómetros sem a mais pequena contrariedade".

Após uns dias de descanso e promoção comercial na invicta, os intrépidos desportistas arrancaram na manhã do dia 27 em direção a Viana do Castelo, um percurso descrito com expressividade, mesmo se aqui e ali pontuado por alguns naturais equívocos de turistas apressados: "A estrada, atravessando Vila do Conde, é, desde a saída do Porto, bastante má. De Vila do Conde à Póvoa de Varzim continua péssima e quero crer que nunca na vida esse troço de estrada esteve bom. Tendo várias vezes aí passado, sempre a tenho encontrado no mesmo estado de "má". Só pelas alturas de Esposende, entrando francamente no distrito de Viana, é que a estrada começa a ser regular e assim se mantém até Darque, perto de Viana, onde piora. Viana tem péssimas ruas antigas, dando o andar nelas a verdadeira sensação de se ir... a cavalo, ou por outra... nos muitos cavalos do automóvel. Absolve-se porém das suas más ruas graças ao Monte de Santa Luzia. É o mais lindo que até agora em Portugal temos visto. Panorama variadíssimo, com planície, montanhas, mar e rio, é um verdadeiro "kosmorama". Aliando agora a estas belezas naturais, um dos melhores Hotéis em que no país temos passado, pelo seu conforto e ambiente; um ótimo restaurant, pastelarias, carreira de tiro, cinematógrafo, etc, torna-se esta estância verdadeiramente aprazível. (...) O bem estar que aí tivemos foi tão grande que lá nos demorámos os dias 27 e 28, assistindo com prazer à construção do elevador que em breve cortará o monte numa rápida ascensão.

Com saudade deixámos a montanha de Santa Luzia, que o "Fiat" escalava em 8 minutos sempre numa "terceira" vigorosa, para seguirmos para Valença, por Amora [sic], Moledo e Caminha. Ao chegarmos a esta terra tivemos a notícia que a ponte que atravessa o Minho [sic] estava tão avariada que era impossível atravessá-la, sendo preciso para seguir dar uma volta por Vila [sic] de Mouros, que aumentava de 15 quilómetros o nosso caminho. Tendo absoluta confiança na maleabilidade do "Fiat", atravessámos por ela "quand même", tendo por várias vezes a sensação de um "banho" no Rio Minho [sic]. Felizmente passámos, não sem termos visto buracos por onde o automóvel passaria com toda a facilidade, para o "meio apático" (Sanches de Castro, ABC, 17-8-1922). Para comprovar a autenticidade do relato perante os seus leitores, a edição da ABC que estamos a acompanhar incluía uma pouco nítida — mas, ainda assim, muito valiosa para nós — fotografia da ponte de madeira sobre o rio Coura que ilustra exemplarmente o seu estado deplorável nesse mês de Julho de 1922.

Quase centenária à época destes factos — tinha sido inaugurada em 1839, nos primórdios do liberalismo — a ponte de madeira sobre o rio Coura há muito que deixara de ser motivo de orgulho para os caminhenses pelo seu mau estado de conservação. Praticamente desde a sua construção fora sempre fonte de grandes preocupações e despesas para os executivos municipais pela sua difícil manutenção e constantes problemas mas a situação vinha-se agudizando desde 1884, quando um aparente fogo posto fizera desaparecer mais de catorze metros do trilho de madeira. Por 1920, dois anos antes do raid automóvel da ABC, o estado ruinoso do tabuleiro obrigara mesmo a Câmara a interromper o trânsito de veículos por razões de segurança, forçando-os a fazerem o desvio por Vilar de Mouros — o que, como vimos, não foi respeitado pelos automobilistas da revista lisboeta.

Curiosamente, para remate da descrição do circuito automóvel pelo Alto Minho — a etapa, com 289 quilómetros, prosseguiria por Valença (com pernoita), Melgaço, Monção, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca, concluindo com o regresso a Viana — o foto-repórter da ABC tinha reservada uma cacha jornalística sobre a desgraçada ponte de madeira sobre o Coura: "Já depois de fechado este artigo deram-nos a notícia que a ponte de Caminha ia ser reparada a expensas da SHELL. Bravo, bravíssimo, os nossos parabéns aos minhotos, ao distinto sportmen Ch[arles] Bleck, a quem esse benefício se deve" (idem). Não sabemos onde foi Sanches de Castro buscar esta informação que parece apenas fruto de excesso de zelo publicitário já que não se viria a confirmar. Bem pelo contrário, dois meses decorridos da passagem do raid automóvel, um novo incêndio no tabuleiro de madeira obrigaria a Câmara a suspender o trânsito pedonal que foi desviado para a ponte de caminho de ferro (Ata CMC, 7-10-1922). Como outras vezes sucedeu, valeria a Caminha a intervenção do senador Luís Ramos Pereira que em 1924 conseguiu do governo a aprovação do projeto para a reconstrução do tabuleiro em cimento armado. A obra começaria dois anos depois mas, com muitos atrasos, só se concluiria em Dezembro de 1930 com a reabertura ao trânsito da ponte, agora estatal e pela primeira vez livre de qualquer portagem.

pntbento@mail.telepac.pt, 9 de Fevereiro de 2013


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