Jornal Digital Regional
Nº 606: 20/26 Out 12
(Semanal - Sábados)






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Cenas do verão ancorense de 1930

Acompanhando a crescente popularidade dos magazines ligeiros nas primeiras décadas do século XX, em 1920 sai para as bancas a ABC — Revista Portuguesa, dirigida por Rocha Martins — conhecido jornalista, ativista político e historiador —, que tinha na fotografia a sua imagem de marca no contexto da imprensa portuguesa do tempo. Privilegiando naturalmente o noticiário político e social de Lisboa e arredores, por vezes procurava sair da capital e mostrar aos seus leitores cenas da vida na província, como então se dizia. No verão de 1930, a ABC publicou uma série de reportagens realizadas por terras do Alto Minho, iniciadas com um número especial dedicado a Viana do Castelo saído a 21 de Agosto. Na semana seguinte, em 28 de Agosto, surge um artigo a duas páginas intitulado "À beira-mar - A Praia de Âncora" que merece a nossa atenção.

Por essa altura, a reputação de Vila Praia de Âncora como local de veraneio há muito que estava estabelecida entre as praias do norte, mas a foto-reportagem da ABC sobre o verão ancorense de 1930 tem um interesse especial para a história dos costumes e das mentalidades. Com o país em plena Ditadura Militar, vivia-se um curto período charneira entre a época que se convencionou denominar de "loucos anos 20" — que em Portugal corresponde à Primeira República —, e o advento do Estado Novo com o seu moralismo conservador de que as mulheres seriam as vítimas maiores. O mais curioso no artigo estival da ABC é precisamente o colorido liberal e ousado do texto e das muitas fotografias que o acompanham. Alegres raparigas com cabelos à "garçonne" e fatos de banho curtos, em franco e próximo convívio na praia com rapazes da sua idade, são imagens que a censura salazarista não deixaria facilmente repetir nas décadas seguintes. O mesmo se diga da licenciosa prosa, plena de estrangeirismos e sugestões cinematográficas, até de algum erotismo, mesmo que matizado com aquele marialvismo tão português. Subscrita por um misterioso A.V. , apetece arriscar que se trata da pena de Abel Viana, por esses anos professor no concelho (em Seixas e Lanhelas), também jornalista e publicista na imprensa local e regional, o que torna a hipótese pelo menos plausível. Seja como for, ilustrado pelas fotografias que reproduzimos (sem assinatura reconhecível), o articulista da ABC merece sem dúvida a transcrição do seu artigo que bem podia ter intitulado "Cenas do verão ancorense de 1930":

"Vem, leitor amigo. Dá-me o teu braço, prepara o teu kodak e dispõe-te a deleitar os teus olhos no cenário magnificente duma das mais lindas praias portuguesas. Vem refrescar um pouco o teu espírito, encandecido pela morna monotonia dos dias estivais da cidade. Esquece o trabalho material por uns momentos e entrega-te todo à volúpia que te vai impregnar os sentidos dum delicioso bem estar.

Há sol, o sol de Agosto, mas a brisa quebra o ardor com que os raios fustigam a areia da praia. Tudo é luz, luz intensa que nos anima a viver, que nos incita a gozar a suprema ventura dumas horas de deleite, entre o mar calmo e a areia dormente. Tenta gravar no teu cérebro tudo quanto a retina impressiona, tudo quanto te entra pelos olhos dentro. Estás numa linda praia, numa praia encantadora, num dos recortes mais pitorescos desta costa abençoada de Portugal. Estás na Praia de Âncora, em pleno Minho. Tens em torno de ti uma paisagem soberba, vê-a bem, olha-a com a ternura que ela te requer.

E depois de embriagares os teus sentidos na féerie estonteadora de tal cenário, distrai a tua atenção para os personagens da mágica que se está exibindo nesse grande palco da praia. Deixa o elemento masculino, que não interessa, é prosaico, é falho de beleza. Detém-te a ver os intérpretes femininos da comédia que se está exibindo. Como no desenrolar dum film, vais assistir a cenas impressionantes de encanto, que se sucedem umas às outras. É um film sonoro, é um film colorido, o mais perfeito que se tem exibido até hoje. Em grupos, palrando alegremente, gargalhando alegria, rescendendo frescura, lá vão elas, as grandes vedetas do film, as estrelas de primeira grandeza, que espalham centelhas imanadas de olhos irrequietos, perturbadores. Maillots ou toilettes frescas, têm o aspecto benfazejo do sorvete em dia de calor. Andam à fresca e refrescam-nos por sugestão. Em cada uma vai o capítulo dum romance, vai um trecho da novela que saiu este verão e que eu intitularia "Dos banhos de mar aos banhos de igreja".

Não sei se já reparaste, amigo leitor, que os banhos de mar são aconselhados para certas doenças, mas o mal que mais radicalmente curam é o mal de amor... E há tanto amor em procura de alívio... Olha em torno de ti. Conta quantos sorrisos, quantos olhares ternos cortam o espaço, para todas as direcções. Não podes contá-los? Nem eu. É um novo sistema a ser estudado pelos sem-filistas... É o sem-fios do amor... E elas são tão bonitas! Quais preferes, as portuguesas ou as espanholas?
Eu confesso a minha indecisão. És livre. Aí tens um conjunto divinal de lindas caras. Escolhe a que mais te agradar... basta que tu lhe agrades também. Mas, repara, não te deixes levar pelo entusiasmo, não as escolhas a todas, porque há mais leitores como tu e o tempo dos monopólios tende a acabar. Que tal? É ou não encantadora a Praia de Âncora? Claro que sim, e as banhistas são tão bonitas...". — Agosto - 930. A.V.

pntbento@mail.telepac.pt, 20 de Outubro de 2012