Jornal Digital Regional
Nº 565: 10/16 Dez 11
(Semanal - Sábados)






Email Assinaturas Ficha Técnica Publicidade 1ª Pág.
Cultura Desporto Freguesias Óbitos Política Pescas Roteiro

"ORA EXPLIQUE LÁ OUTRA VEZ,
COMO É QUE FOI QUE ELA DISSE?"

O mistério da "Maria Antonieta"
Júlia Paula acusou ex-assessora
Mais um "folhetim" na forja?

Júlia Paula fez ontem uma curta apresentação em "power point", a propósito de mensagens de e-mail que circulam pelo concelho, relacionando o nome da sua antiga assessora, e deixando no ar a hipótese de ser ela uma tal "Maria Antonieta". Misturou o assunto com um alegado ataque ao site da Câmara por hackers e informou a Assembleia Municipal de que já fez queixa à Polícia Judiciária. O C@2000 deu hoje de manhã (Sábado) a "notícia" à antiga assessora que se mostrou inicialmente incrédula, mas acabou por comentar o assunto, atribuindo o "disparate" ao clima de turbulência geral: "pelo que tenho ouvido e lido, está a passar por aí um 'furacão'. Caminha está mergulhada num turbilhão de notícias que, não deixando de ser tristes, devem afectar muito a presidente, deixando-a nervosa e desesperada. Não posso encarar de outra forma semelhante disparate".

Segundo Júlia Paula, a preocupação principal será a suposta utilização de uma base de dados de endereços, da autarquia, de que se teriam apropriado os tais hackers. O "power point" estava preparado para uma pergunta que surgiu pela voz da deputada do PSD, Carla Malheiro, destinatária também, segundo revelou, das mensagens da Maria Antonieta.

A presidente, no final da sua intervenção no período de antes da ordem do dia da reunião, quando respondia às perguntas dos deputados, tirou "o coelho da cartola" e exibiu algumas imagens de tais mensagens da Maria Antonieta, assim como uma mensagem enviada pela ex-assessora, divulgando um evento da Associação Selva dos Animais, de que é vice-presidente. Em ambas surge o endereço de e-mail de Rosa Sampaio, mas acabou por não se perceber bem o contexto da mensagem da Antonieta, dada a velocidade da exibição.

Confrontada com o relato do episódio, a ex-assessora "obrigou-nos" a explicar várias vezes o "caso" da Assembleia Municipal e aclarou: "tudo isso que me está a contar é ridículo, nem sei que lhe diga. Incomoda-me, sobretudo, pela senhora presidente misturar coisas sérias, como os animais, com uma encenação sem pés nem cabeça".

"Você já me conhece há muitos anos. Muitas das pessoas que estavam na Assembleia Municipal também me conhecem. Sempre respeitei toda a gente e não há um funcionário da Câmara de Caminha que possa dizer o contrário. Brincar às mensagens não faz o meu estilo e a Maria Antonieta nunca seria a minha heroína - foi guilhotinada".

Recibo, mensagem reenviada ou montagem

Rosa Sampaio revelou que, também ela, está na "lista" da Maria Antonieta. "Tenho recebido algumas mensagens dessa tal Antonieta. Numa das vezes até lhe reenviei a mensagem, com um comentário, aconselhando-a a ser mais criativa. Não sei se são iguais para todos, mas as mensagens que eu recebi não tinham qualquer novidade. São textos de jornais e um documento da ERC que eu já tinha visto".

Sobre a suposta presença do seu nome na mensagem enviada pela Maria Antonieta e exibida, ainda que fugazmente por Júlia Paula, a professora universitária foi peremptória: "pede-me que explique o inexplicável, mas só pode ser uma de três situações: ou é um recibo, ou é a mensagem que enviei à Maria Antonieta ou é uma montagem, não há outra hipótese. A não ser que um hacker tenha entrado no meu computador, mas eu não acredito nisso, porque não tenho a mania da perseguição", ironizou.

"Qualquer outra hipótese é falsa e espero que isso seja provado, embora não acredite que a PJ se interesse por marias antonietas e conspirações de trazer por casa, por muito que se tente dar a volta ao texto. Mas os hackers são diferentes e estão na moda. Ontem foi o ataque ao site do CDS; há dias foi o PSD e o PS e já tinha havido um ataque ao da PSP, pelo menos. É porque a Câmara de Caminha está na lista dos hackers".

O estranho caso do parque de estacionamento

Sempre relutante em prolongar a conversa, a ex-assessora acabou por revelar um episódio ocorrido na semana que agora finda, envolvendo Júlia Paula. "Olhe, se ela pensasse um pouco, chegava à conclusão que a Maria Antonieta é qualquer pessoa, menos eu. Há coincidências extraordinárias".

A responsável contou então que, na passada terça-feira, foi almoçar com um colega, jornalista, a Viana do Castelo e depois ambos fizeram compras numa superfície comercial de Darque, onde se cruzaram com Júlia Paula e o marido, presumivelmente também às compras.

E prosseguiu: "isso não teria interesse nenhum se não fosse o facto de, ao abrir as minhas mensagens nesse dia, à noite, encontrar mais uma da Antonieta, enviada precisamente durante esse período. Ora, não devo ter sido a única contemplada. Por isso, o que recomendo à senhora presidente é que investigue junto de quem sabe receber também mensagens, se isso aconteceu. Como eu não tenho o dom da ubiquidade, está explicada parte do imbróglio".

A ex-assessora contou depois que o encontro com o casal foi muito estranho. "Quando estávamos dentro do carro, na saída do parque do Aki, eles estavam precisamente à saída do parque do Izi, que fica em frente. Nós demos uma volta no parque porque eu queria ver um abrigo de jardim, uma vez que a associação vai comprar, julgo que por estes dias, um abrigo desses para proteger os gatos. Só me apercebi que a Júlia Paula e o marido entraram no parque do Aki quando já íamos embora. Dei com ela em pé, no meio dos carros, com os braços cruzados, sozinha. Agora percebo que estava a olhar para nós e eventualmente à procura do computador da Antonieta. Na altura hesitei em cumprimenta-la, mas a situação pareceu-me esquisita e desisti. Parece uma anedota".

Polícia Judiciária sem "mãos a medir"

Com mais este caso dos supostos hackers e da Maria Antonieta, a Polícia Judiciária parece não ter "mãos a medir" só para tratar os casos de Caminha.Os já conhecidos prendem-se com mais uma mensagem, desta vez telefónica, que acabou por levar Júlia Paula, Flamiano Martins e José Bento Chão a serem constituídos arguidos, por suspeita de crime de peculato.

O caso da alegada falsificação de assinaturas pelo vereador do PSD, João Maria Pereira, será outro, provavelmente, a cair nas mãos da polícia criminal.

Mas há fortes probabilidades da existência de mais casos e Júlia Paula acaba agora de engrossar o rol.

Para a ex-assessora, tudo isto retrata uma situação de "fim de ciclo" e de "decadência": "Ela não suporta que as pessoas se relacionem com os inimigos que ela julga que tem, sejam eles reais ou imaginários, mas eu nunca entrei nesse jogo. Para mim contam as pessoas, não me importa quem fica incomodado. No entanto, se os hackers atacaram o sistema da Câmara, a Júlia Paula não tinha alternativa senão comunicar o que julga que aconteceu, decorre da lei".

Já no final, a conversa com o C@2000 assumiu um tom mais intimista e a ex-assessora revelou a sua ligação "familiar" à PJ. "O meu avô materno faleceu quando a minha mãe ainda era criança e a minha avó voltou a casar, precisamente com um inspector da Polícia Judiciária. Tenho as melhores recordações do 'avô' Daniel, um homem íntegro e carinhoso. Como a minha mãe era filha única, havia uma relação familiar muito estreita com as netas. Os inspectores andavam lá por casa dos meus avós e mesmo depois de ele se reformar ainda o visitavam. Os mais novos chamavam-lhe avô, mas lembro-me que ele não gostava muito e dizia que não tinha netos tão grandes. É boa gente".

A resposta a Júlia Paula

O C@2000 quis ainda saber se haverá uma posição, por exemplo, ao nível da Justiça. "Você apanhou-me de surpresa, ainda estava a tomar o pequeno-almoço. O que me contou é uma patetice sem tamanho, mas claro que também é muito grave".

Sem desvendar qual será a sua atitude, a ex-assessora riu-se e atirou: "a Maria Antonieta é que perdeu a cabeça e parece que não foi a única. Não sei se espero pela acta da Assembleia Municipal ou não. Tenho de consultar o meu advogado, mas não lhe vou ligar no fim-de-semana por causa dessas tolices". E rematou: "Ó Luís, desculpe lá, já perdi a aula de hidroginástica, mas ainda quero ir até à piscina".

"Podemos publicar isso?", perguntou o C@2000. A resposta veio algo inesperada: "O quê, a patetice (gravíssima já disse) ou a piscina? Olhe, eu não gosto de folhetins, mas faça como quiser. Eu quando saí da Câmara escrevi uma carta à Júlia Paula muito extensa, dez páginas. Recomendo que ela a leia ou releia porque permanece tudo actual. Passa pela cabeça de alguém que me pusesse a mandar mensagens quase dois anos depois?"

A deixa da "carta" levou o C@2000 a insistir e a colocar mais uma questão: "nunca se soube qual a razão pela qual acabou a relação com a Câmara…. Não quer revelar a carta". (Risos) "Olhe que agora é mesmo para acabar. Está tudo na carta, é verdade, mas não".