Jornal Digital Regional
Nº 516: 4/10 Dez 10
(Semanal - Sábados)






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Recordando "O Rebelinho", o músico caminhense
"que no seu século teve Europa"

Paulo Torres Bento

A semana em que se comemora o 1 de Dezembro - data da Restauração da Independência de Portugal em 1640 - não podia ser mais adequada para assinalar, ainda que modestamente, a passagem dos quatrocentos anos do nascimento de um caminhense notável que foi amigo e servidor de D.João IV, o monarca restaurador. Refiro-me a João Lourenço (ou Soares) Rebelo, "O Rebelinho", que ocupa na história da música em Portugal um lugar de grande destaque como emérito polifonista e introdutor da estética barroca no panorama musical do nosso país.

De acordo com a maioria dos autores terá nascido no ano de 1610 mas um historiador rigoroso como Serra de Carvalho - que infelizmente deixou no prelúdio uma biografia do "Rebelinho" encetada nas páginas da Caminiana - apontava 1609 como a data mais provável, apesar de confessar a ausência de documentação certa para confirmar ano, mês e dia. Do que não restam dúvidas é do seu nascimento na vila da foz do Minho, filho de João Soares Pereira e de Maria Lourenço Rebelo, contando-se entre os seus irmãos outro músico de valor, Marcos Soares Pereira.

Entrada a segunda década de seiscentos, terão os dois irmãos recebido as primeiras lições de um seu tio, o padre Domingos Lourenço, que era mestre organista na Igreja Matriz de Caminha. Aí terão revelado aptidões que mereceram a ambos o chamamento da Casa de Bragança, a mais nobre família portuguesa em tempo ainda filipino, sendo admitidos ao serviço de D.Teodósio. Foi pois no Paço de Vila Viçosa que os dois músicos caminhenses travaram conhecimento com D.João, o primogénito do duque e futuro rei de Portugal, que seria daí para a frente o seu patrono.

Uma amizade de ouro que, depois de restaurada a independência em 1640, valeria a Marcos Soares Pereira o lugar de Mestre da Capela real em Lisboa e a João Lourenço Rebelo uma muito particular protecção por parte de D.João IV, um rei melómano ao ponto de reunir a maior biblioteca musical europeia da época e de ter publicado tratados teóricos. Era tal a admiração do monarca restaurador pelas qualidades de compositor sacro reveladas por "Rebelinho" - "tendo notícia dos talentos de tantos e tão grandes Proffessores de Múzica, não tinha achado outro q'igualasse ao de Rebello" (Mazza) - que lhe dedicou o seu opúsculo "Defesa da Música Moderna" e deixou em testamento, pouco antes de falecer em 1656, a vontade expressa de que fosse conhecida na Europa a obra do músico caminhense.

Assim aconteceu logo no ano seguinte, com a edição em Roma, na Oficina de Maurício e Amadeu de Balmonte, de uma colecção dos "Salmos de Rebelo" para vários coros de vozes, na opinião dos musicólogos "um diversificado jogo de conjuntos frequentemente assimétricos que combinam vozes e instrumentos, na exigente escrita instrumental e na ornamentação vocal" (Alvarenga).

As mercês reais valeram entretanto a João Lourenço Rebelo, que em 1652 se consorciou com D.Maria de Macedo, o foro de Fidalgo da Casa Real, assim como comendas, donatarias e outros favores que lhe proporcionaram certamente uma vida confortável até ao seu falecimento cuja data a maioria das fontes situam em 1661 e outras em 1665.

A fama do talentoso "Rebelinho" perdurou porém para além da sua morte e disso deram nota os seus conterrâneos cronistas do século seguinte, como o padre Gonçalo Rocha de Morais, Bento Barbosa Caldas ou o autor da Descripção da Villa de Caminha que, orgulhosamente, não se esqueceu de reivindicar que "nela nasceu o mais insigne compositor de solfa, que no seu século teve Europa...".

O mesmo não poderemos dizer neste ano de 2010 (ou terá sido em 2009) em que se comemorou o quarto centenário do nascimento de João Lourenço Rebelo, efeméride que quase passou desapercebida no todo nacional - "sintomática do profundo e generalizado desinteresse da sociedade portuguesa pelo nosso património musical" (Manuela Paraíso) -, esquecimento ainda mais lamentável na sua Caminha natal, pelo menos do que tomámos conhecimento.

Fontes consultadas

José Mazza (séc.XVIII). Dicionário Biográfico de Músicos Portugueses (prefácio e organização de José Augusto Alegria). Extraído da Revista Ocidente, 1944-45.
Descripção da Villa de Caminha (Extrahida de um manuscrito original). [1739]. Viana do Castelo: Tipografia Vianense, 1878 [Cópia impressa de manuscrito existente na Biblioteca Pública Municipal do Porto].
Manuel Raimundo Serra de Carvalho (1982). João Soares (ou Lourenço) Rebelo, "O Rebelinho". Vida e obra do notável contrapontista caminhense do século XVII. Caminiana, IV, 7, 25-45.
Cristina Fernandes (2006). Festa da Música - Portugal. Público (suplemento cultural). 15 de Abril de 2006.
João Pedro d'Alvarenga. Análise do "Magnificat a 13 vozes" (1639). Visualizado em http://e-cultura.sapo.pt/DestaqueCulturalDisplay.aspx?ID=575&print=1
Manuela Paraíso (2010). Nos 400 anos de João Lourenço Rebelo. Jornal de Letras, Artes e Ideias. 17 de Novembro de 2010.

Música de João Lourenço Rebelo disponível para ouvir na Internet

http://fonoteca.cm-lisboa.pt/cgi-bin/info3.pl?5251&CD&0
http://www.youtube.com/watch?v=Owi31Qasa9Y
http://www.youtube.com/watch?v=xtGEbtREYe0
http://www.youtube.com/watch?v=VaTgSQ4px3s&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=cfoz4CIZ_tc&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=cupSR9BTbxQ&feature=related